As barreiras do gênero no esporte

Apesar da diferença nas premiações entre homens e mulheres diminuir, no ranking dos 100 atletas mais bem pagos, a tenista Serena Williams é a única representante feminina

 

Mulheres conquistaram espaço nas Olimpíadas, mas ainda lidam com disparidades salariais e de premiação em outras competições. / Foto: Kirby Lee, do USA Today Sports

Por Camila Nogaroli*

“Isso não é lugar de mulher, não.”

No contexto histórico da desigualdade de gênero, esse tipo de frase é usada para desmerecer a posição da mulher em alguns campos da sociedade. O esporte é um deles, apesar do progresso das últimas décadas. Para se ter uma ideia das barreiras ainda a serem superadas, em meados de junho, a revista Forbes publicou a sua lista anual dos atletas mais bem pagos do mundo. Entre os 100 nomes, há apenas uma mulher.

A tenista norte-americana Serena Williams ocupa a 51ª posição no ranking, com rendimento anual estimado em 27 milhões de dólares. O 1º lugar ficou com o jogador Cristiano Ronaldo pelo segundo ano seguido. Entre salários e bonificações, o português recebeu cerca de 93 milhões de dólares, mais do que o triplo do que recebeu a líder entre as mulheres.

Confira abaixo o ranking dos atletas mais bem pagos. Para acessar o ranking completo, clique aqui.

POSIÇÃONOMERENDIMENTOESPORTE
Cristiano Ronaldo$93MFutebol
Lebron James$86MBasquete
Lionel Messi$80MFutebol
Roger Federer$64MTênis
Kevin Durant$60MBasquete
Andrew Luck$50MFutebol Americano
Rory McIlroy$50MGolfe
Stephen Curry$47MBasquete
James Harden$46MBasquete
10ºLewis Hamilton$46MFórmula 1
51ºSerena Williams$27MTênis

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ESTUDO SOBRE PREMIAÇÕES

No mesmo mês, um estudo da BBC Sport divulgou que as premiações em dinheiro de competições esportivas ainda são menores em algumas modalidades femininas. Mas, esta disparidade vem diminuindo quando comparada à um primeiro balanço feito em 2014.

Cinquenta e cinco órgãos administrativos da área responderam à pesquisa neste ano. Em 2014, dos 35 esportes que premiavam em dinheiro os vencedores, 25 pagaram quantias semelhantes aos homens e mulheres da mesma categoria. Já em 2017, dos 44 esportes analisados, 35 pagaram o mesmo valor – um crescimento de 8%. São considerados campeonatos mundiais e eventos equivalentes, sem especificar questões de mídia, patrocínios, salários e bônus.

Entre campeões da desigualdade estão o golfe, o críquete e o futebol. Na Copa do Mundo da FIFA, por exemplo, a disparidade é em torno de 33 milhões de libras. No U.S. Open, um dos campeonatos americanos mais importantes de golfe, o vencedor masculino do torneio recebe 900 mil libras a mais que a ganhadora feminina.

EM BUSCA DE EQUIDADE

A ausência de equidade entre os gêneros no esporte tem raízes olímpicas. Na primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, em 1896, as mulheres foram proibidas de participar. Como forma de protesto, a grega Stamati Revithi realizou o percurso da maratona de 40 quilômetros do lado de fora do Estádio Panateico (Atenas), em um tempo menor do que o de alguns homens que disputaram a prova. Mas o Comitê Olímpico Internacional não reconheceu os esforços dela. Na edição seguinte, em 1900, 22 mulheres competiram em um total de 977 atletas. A tenista britânica Charlotte Cooper foi a primeira a ganhar um ouro olímpico.

A inglesa Charlotte Cooper / Foto: Wikimedia Commons

Hoje, mais de um século depois, o “Clube do Bolinha olímpico” foi dissolvido. Desde 2012, há categorias femininas em todos os esportes das Olimpíadas. Além disso, as mulheres já são quase metade do número de atletas, com 4.700 participantes nos Jogos Rio 2016.

A ex-jogadora de basquete Paula Gonçalves, conhecida nas quadras como Magic Paula, conta que, durante a carreira, lidou com preconceito e ofensas até ser respeitada por sua competência. Ela defende que as mulheres vão motivando umas às outras:

– A minha geração do esporte serviu de inspiração para as futuras gerações por causa das conquistas. As mulheres já avançaram muito no esporte, mas estão longe do ideal. Nossa conquista é diária e, aos poucos, vamos avançando – diz a campeã mundial de basquete.

Para Andréa Lopes, tetracampeã brasileira de surf, as atletas da atualidade devem investir na própria imagem diante dos meios de comunicação para buscar cada vez mais influência:

– Tem que dar atenção, falar com a mídia especializada e a não-especializada. Para poder passar uma mensagem do esporte, se dirigir a quem não o pratica, empregar algo que a mãe ou o pai em casa possam dizer “poxa, que barato, eu quero que a minha filha seja atleta”. E aí o interesse da mídia e dos patrocinadores vão ser uma consequência de todo esse movimento.

A boa notícia é que a participação de mulheres nos esportes não está se restringindo aos campos, pistas e quadras. No Brasil, há 10 mulheres entre os 19 integrantes da atual Comissão de Atletas do Comitê Olímpico Brasileiro. Uma delas é a jogadora de basquete Hortência, primeira atleta brasileira a entrar para o Hall da Fama da Federação Internacional de Basquetebol.

A NOÇÃO DE ESPAÇO PÚBLICO

Para a advogada Carla Vitória, integrante da Sempreviva Organização Feminista (SOF), a noção de espaço público está ligada aos homens e a de espaço privado, às mulheres, o que acaba influenciando no mundo esportivo:

– Os homens estão na rua livremente e as mulheres não, porque ficam vulneráveis. Tem o assédio, a desigualdade. Quando se pensa na prática dos esportes em locais públicos, parece que isso é muito mais para os homens, são eles que a gente costuma ver nas quadras por aí. Desde a infância, tem o jogo dos meninos e o das meninas. Mas, a situação tem evoluído. As mulheres têm que praticar os esportes, precisam de poder e visibilidade. Então, agora, é sobre ocupar o espaço público também, reivindicar o lugar da mulher, incentivar as atividades, mexer o corpo.

SÉRIE DESIGUALDADE DE GÊNERO:
1ª Parte | Quando a mulher vira mercadoria
2ª Parte | Artigo: Mulheres e Grandes Empreendimentos 
3ª Parte | As barreiras do gênero no esporte
4ª Parte | Artigo: Como pensar a problemática de gênero nos grandes empreendimentos?
5ª Parte | Ibama vai incluir gênero no processo de licenciamento

*Estagiária sob supervisão do editor Renan França

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