Guilherme Boulos: “O Brasil é uma Disneylândia financeira”

O líder do MTST, Guilherme Boulos, pode ser a escolha do PSOL para a corrida presidencial. Em entrevista exclusiva, defendeu as ocupações dos sem-teto espalhadas pelo país e a ampliação dos programas sociais como o Bolsa Família. Crítico do governo Temer, disse que a população cansou de ir para a rua porque há um sentimento de derrota. Ainda sobrou tempo para alfinetar o deputado Jair Bolsonaro que, segundo ele, é a figura mais nefasta da política brasileira
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Aos 36 anos, Guilherme Boulos é líder do MTST, responsável por coordenar ocupação de terrenos e prédios ociosos nas grandes cidades / Foto: Gabo Morales

Por Renan França e Sergio Marcondes

Guilherme Boulos é o quadro favorito de uma provável candidatura do PSOL à Presidência da República. Apesar de dizer que não pensa no assunto, o paulista tem ganhado cada vez mais projeção nacional pelo trabalho à frente do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Com duas décadas de fundação, a organização tem hoje 50 mil famílias que buscam por moradia. E é Boulos quem dá a voz de comando aos seguidores, defendendo a ocupação de terrenos e prédios ociosos nas grandes cidades, especialmente em São Paulo, onde vive.

— As ocupações do MTST são legítimas e ocorrem dentro da legalidade. Só que difundiu-se a ideia de que quem ocupa é “vagabundo” ou quer “levar vantagem”. As pessoas se esquecem de que quem ocupa o faz por não ter alternativa — afirma Boulos. — Podem questionar o método, mas qual o outro método que sugerem? Fazer um cadastro na prefeitura e esperar por uma casa durante 30 anos?

“Povo sem medo” é a mensagem de boas-vindas pregada na árvore. Estamos na sede do MTST, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, numa segunda-feira fria de dezembro. A reportagem do socioeconomia.org é convidada a entrar e logo sente o cheiro da fumaça de café que serpenteia pelo o ambiente. Sentado à mesa, na sala principal, de frente para um obrigatório pôster da Revolução Cubana, com a imagem de Fidel, Boulos recebe os convidados com um sorriso simpático, antes de começar a terceira entrevista da série “Personagens da política para 2018”, que discute temas socioeconômicos com lideranças políticas que devem se destacar neste ano. Nas duas primeiras, os entrevistados foram Fernando Haddad (PT) e João Amôedo (Novo).

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Boulos é articulado, não faz rodeios e tem na ponta da língua respostas para qualquer questionamento. O discurso que pulsa nas veias pode ser visto como radical. Propõe a taxação dos bancos (“O Brasil é uma Disneylândia financeira”, diz), ataca a prática frequente dos governos de permitir a ida de profissionais do mundo corporativo para estatais e contesta a forma como foi administrado o Programa Minha Casa, Minha Vida. Além disso, Boulos critica a esquerda brasileira, esclarecendo, por exemplo, que respeita muito o ex-presidente Lula, mas tem divergências em algumas questões com o cacique petista.

Formado em Filosofia pela USP, o líder dos sem-teto tem 36 anos – um acima da idade mínima para ser presidente. Mas foi há cerca de duas décadas que nasceu o Boulos que todos conhecem hoje. Aos 15 anos, o garoto franzino, que já ostentava o cavanhaque de barba grossa, envolveu-se com o movimento estudantil da União da Juventude Comunista e, logo em seguida, conheceu o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o filhote do movimento, o MTST – que, hoje, é uma organização independente.

Filho de um dos mais concei