Pesquisadora fala sobre a importância das mulheres nos processos de paz

Em entrevista, Adriana Abdenur explica a necessidade de participação feminina na prevenção e resolução de conflitos

Ação humanitária da ONU Mulheres no campo de refugiados Zaatari, na Jordânia (04/10/15) / Foto: Flickr UN Women; Christopher Herwig

Por Camila Nogaroli

“A paz não é viável sem a participação ativa das mulheres”, destaca Adriana Erthal Abdenur ao tratar das questões de gênero relativas a processos diplomáticos.

Adriana trabalha no campo das Relações Internacionais e coordena a área de Paz e Segurança do Instituto Igarapé, uma entidade que combina pesquisa aplicada com novas tecnologias. É também pesquisadora colaboradora da Escola de Guerra Naval e bolsista de produtividade do CNPq. Atualmente, faz consultoria para o Departamento de Assuntos Políticos da Organização das Nações Unidas, que lida com mediação e prevenção de conflitos armados.

Em entrevista ao socioeconomia.org, ela trata da implantação da agenda “Mulheres, Paz e Segurança” determinada pela ONU e ressalta que é fundamental abrir mais espaços para que as mulheres possam atuar em importantes decisões políticas. Confira:

Primeiramente, fale um pouco sobre o seu trabalho no Instituto Igarapé.

R: O Instituto Igarapé é um “think and do thank” independente, que se dedica às agendas de segurança, justiça e desenvolvimento. Eu coordeno a área de Paz e Segurança e trabalho com três linhas de pesquisa. A primeira diz respeito à prevenção de conflitos, sobretudo os armados; buscamos identificar práticas concretas de prevenção, através da mediação e das operações de paz, em diferentes regiões da África. A segunda gira em torno dos processos de paz na Colômbia: nós estudamos a implementação do acordo de paz entre o governo e as FARC, no que diz respeito à entrega de armas e à reintegração de ex-combatentes, principalmente as mulheres; já no caso do ELN, analisamos as dinâmicas das negociações e o papel dos países garantes. A terceira linha é sobre refugiados e migrantes, e a minha parte se concentra no papel das cidades que recebem essas pessoas, dentro e fora do Brasil.

Você faz pesquisa aplicada, então?

R: Sim. Amo a pesquisa aplicada e insisto na inclusão de componentes empíricos. Não acredito em “pesquisa de poltrona”, sem ir ao campo e conversar com as pessoas, coletar dados, mesmo que o esforço seja sempre embasado em teoria e sirva também para aprimorá-la.

Em quais países você está trabalhando? 

R: Já trabalhei em dezenas de contextos, sempre fazendo pesquisa de campo para trabalhos acadêmicos ou consultorias. Na América Latina, além do Brasil, já trabalhei na Colômbia, no Equador e no México. Na África, ando fazendo pesquisa na Etiópia, no Quênia, em Guiné-Bissau, mas também já trabalhei em Moçambique, na África do Sul e no Malaui. No Oriente Médio, nesses últimos anos, fiz pesquisa no Líbano, na fronteira da Síria e na Turquia.

Tem algum ponto em comum entre esses lugares?

R: Acho que todos esses lugares têm em comum alguma forma de instabilidade crônica, que varia desde golpes de Estado sucessivos até conflito aberto.

O que mais te atrai, enquanto pesquisadora, nesses contextos?

R: Se tiver que resumir a questão central que me fascina, é a seguinte: como se chega à paz e como se mantém uma paz para além do silenciar dos fuzis, por assim dizer? A resposta passa pela segurança, mas também pelo desenvolvimento e pelos processos políticos inclusivos. Por isso me interesso tanto pela interseção dessas esferas.

Do que se trata a agenda Mulheres, Paz e Segurança da ONU?

R: No âmbito da ONU, a agenda Mulheres, Paz e Segurança tem origem na resolução de número 1325, aprovada pelo Conselho de Segurança em outubro de 2000. Outras resoluções aprovadas desde então buscaram promover a ideia de que não se alcança uma paz duradoura sem inclusão. Ainda mais considerando a exclusão histórica das mulheres da esfera de paz e segurança – seja em relação à participação nas Forças Armadas, na mediação de conflitos, nos processos de paz ou na formulação de política externa, para citar apenas alguns pontos. A paz não é viável sem a participação ativa das mulheres.

Qual é o principal propósito dessa agenda?

R: Um ponto extremamente importante é o reconhecimento de que as mulheres, longe de serem “apenas” vítimas dos conflitos, desempenham uma grande variedade de papéis, desde combate até ativismo. Além disso, elas passam por uma experiência diferenciada do conflito; por exemplo, são, de longe, o alvo mais frequente de violência sexual em zonas de guerra. Portanto, os processos e mecanismos relacionados à paz e segurança devem incorporar uma perspectiva de gênero, que leve em conta as experiências, demandas e preocupações específicas de cada grupo – nesse caso, sobretudo, das mulheres. Vários estudos empíricos demonstram, por exemplo, que a não inclusão de mulheres nos processos de paz aumenta de forma significativa as chances de fracasso das negociações. Veja bem: por si só, a participação das mulheres não é panaceia, ou seja, ela não garante a paz; mas, sem ela, não se alcança a paz, ou se alcança de um jeito não duradouro.

Como está a implantação nos Estados-membros da ONU?

R: Temos que reconhecer também que, na verdade, essa agenda já existia fora da ONU, há décadas em alguns casos. Na Colômbia, por exemplo, a luta das organizações e de ativistas começou há anos e se confunde, no fundo, com o esforço de ampliar a participação das mulheres na esfera política, dentro ou fora do conflito armado. O que a resolução 1325 fez foi promover uma agenda global com o comprometimento dos Estados-membros, embora a sua implementação varie bastante de país para país – uma variação refletida nos Planos Nacionais de Ação que muitos estão elaborando ou revisando. Aqui no Brasil, estamos apenas engatinhando. Nunca tivemos uma ministra da Defesa ou das Relações Exteriores, as mulheres ainda têm espaço bastante restrito nas Forças Armadas e temos ainda muito caminho a trilhar no combate à violência sexual, mencionando apenas alguns dos desafios. Por outro lado, já temos um Plano Nacional de Ação, o que é um marco normativo importante. Esperamos que fique cada vez mais abrangente e participativo.

E como a questão de gênero ainda pode ser abordada dentro da própria ONU?

R: O caminho nem sempre é fácil, até mesmo para quem acredita na agenda. Até a ONU ainda tem muitos pontos a melhorar em termos de implementar a agenda Mulheres, Paz e Segurança nos seus próprios quadros e nas suas práticas. O atual Secretário-Geral, António Guterres, conseguiu a proeza de alcançar a paridade de gênero entre funcionários mais sênior, mas isso em si não resolve todas as disparidades na organização, até porque nunca tivemos uma mulher Secretária-Geral. Além disso, a ONU ainda está tentando desenvolver mecanismos efetivos para eliminar o abuso e a exploração sexual cometidos por integrantes de operações de paz, por exemplo.

De que modo se dá a participação das mulheres na resolução de conflitos?

R: As mulheres sempre desempenham algum papel na consolidação da paz, embora esse papel nem sempre seja visível. Em muitos processos de paz, quando você vê quem se senta à mesa formal de negociações, você só vê homens. No entanto, as mulheres podem estar atuando como mediadoras nas comunidades, em fóruns paralelos e, até mesmo, em negociações sigilosas. Reconhecer esse papel ativo é importante, mas não basta, porque a mesa formal geralmente determina o formato geral de um processo de paz, então elas têm que participar ali também. Nessas últimas duas décadas, alguns casos emblemáticos demonstraram que as mulheres podem e devem sentar-se à mesa como mediadoras, observadoras ou representantes de Estado, entre muitas outras funções.

Pode citar alguns desses casos?

R: Nas Filipinas, mulheres exerceram papéis de liderança na assinatura do acordo em Mindanao, quebrando paradigmas que têm ecos mesmo em outros países. Na Colômbia, os esforços persistentes das organizações feministas resultaram na criação de uma Subcomissão de Gênero em Havana, que revisou o acordo para que o texto incorporasse uma perspectiva de gênero. Elas também inovaram ao convidar uma dúzia de ex-combatentes de outros países, tais como El Salvador, Irlanda do Norte e Nepal, para trocar experiências sobre a incorporação ou não de mulheres nos seus respectivos processos de paz. Na Libéria, mulheres criaram um mecanismo chamado Women´s Situation Room, que visa a redução da violência em épocas de eleição e que já foi adaptado em pelo menos meia dúzia de países africanos. Em Guiné-Bissau, um pequeno grupo de mulheres vêm se esforçando para resolver o impasse político em torno da implementação do Acordo de Conacri. Mulheres de várias profissões, idades e preferências políticas que fazem sacrifícios empenhando-se pela paz. Há imensa criatividade e inovação nessas formas de participação, e elas devem ser apoiadas e ampliadas.

E em relação à Síria e à atual guerra?

R: No caso da Síria, não há um único esforço de mediação, somente várias iniciativas paralelas que raramente se encontram. Ali, o contexto é particularmente desafiador, porque, logo no início, o conflito adquiriu duas camadas: a luta entre grupos armados, inclusive os que combatem o governo de Bashar al-Assad; e a disputa geopolítica, que envolve não apenas países vizinhos e potências regionais, mas também potências globais, como a Rússia e os Estados Unidos. Essas camadas interagem de formas incrivelmente complexas e nem sempre muito fáceis de decifrar. Há alguns anos, um grupo de mulheres constituiu, com o apoio do enviado especial da ONU, uma espécie de força tarefa para tentar abrir espaço para participação nas negociações. Infelizmente, as negociações que estão moldando o cenário do conflito são bastante sigilosas e não se preocupam com a questão de gênero. Isso é particularmente trágico porque as mulheres sírias sofrem desproporcionalmente com a guerra, participam dela de diversas formas e têm um longo histórico de ativismo e mediação.

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