Com mais carros, Belém, a metrópole amazônica, sofre com engarrafamentos

Cidade recebe cerca de 200 mil trabalhadores diariamente de municípios vizinhos

Avenida Almirante Barroso na hora do rush, em Belém: capital sofre com engarrafamento diariamente / Custodio Coimbra

Por Renan França

Belém, hora do rush. Os ponteiros do relógio marcam 16h35m. Nas quatro pistas da Avenida Almirante Barroso, em frente ao Shopping Castanheira, o congestionamento é gigantesco e ronca pesado debaixo de chuva. Sob uma passarela, um motorista joga o carro na frente de um ônibus ao  mudar de faixa e por pouco os veículos não se encostam. No coletivo lotado, um passageiro que viajava próximo à porta quase é jogado para fora com a freada brusca.

– Isso aqui é todo dia, amigo – reclama o passageiro, se ajeitando nos degraus. – É desconforto dentro do ônibus, muito trânsito. Aqui é um querendo passar por cima do outro. E vai assim por duas horas. Ser trabalhador e morar na periferia é coisa para os fortes.

Nas últimas duas décadas, Belém ganhou novas vias, revitalizou ruas importantes e construiu alguns corredores de ônibus. As ações e programas implantados, porém, não foram suficientes para o trânsito da metrópole amazônica respirar. Ainda mais tratando-se de uma cidade que recebe diariamente quase 200 mil pessoas de cidades periféricas que vem à capital para trabalhar. São moradores de municípios como Ananindeua e Marituba, que saem cedo do lar e ficam o dia fora de casa, perdendo tempo nos engarrafamentos – às vezes, dentro de ônibus com mais de 150 pessoas.

– O que ocorre em Belém é o mesmo que ocorre na maioria das capitais brasileiras. Ao longo de décadas, não houve um plano estruturado de investimento em transporte público de qualidade. Com isso, a opção pelo transporte particular acabou ganhando relevância, o que hoje provoca os grandes congestionamentos – afirma a professora Patricia Bittencourt, especialista em mobilidade urbana, professora da UFPA.

O TAMANHO DO PREJUÍZO

Para se ter uma ideia do quanto esse cenário é nocivo para pessoas e para a economia, uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou o prejuízo gerado por uma mobilidade urbana desestruturada. De acordo com o instituto, o tempo médio gasto em deslocamento nas maiores regiões metropolitanas do país é de 82 minutos. Se esse tempo fosse zerado e convertido em horas trabalhadas, teríamos um ganho de produção de R$ 300 bilhões. O exemplo, claro, não é aplicável, pois não existe deslocamento zero – a não ser que o trabalho seja no esquema home office.

Para termos uma melhor ideia do ganho de produtividade, segundo o estudo, se os trabalhadores das regiões metropolitanas reduzissem o tempo de deslocamento de 82 para 30 minutos, e se os 52 minutos economizados fossem convertidos em horas trabalhadas, teríamos um ganho de produção de R$ 200 bilhões ao ano, equivalentes a 3% do PIB brasileiro em 2016. O mais provável, contudo, é que os 52 minutos economizados não sejam convertidos em trabalho, mas sim em horas de lazer com a família e amigos, além do desenvolvimento pessoal, o que aumentaria a qualidade de vida dos trabalhadores.

PROJETO PARA MELHORAR A MOBILIDADE

O governo reconhece o problema e sabe dos impactos socioeconômicos provocados pela falta de uma rede de transporte urbano eficiente. Por isso pretende recuperar o tempo perdido. A ideia é tirar do papel um projeto em desenvolvimento desde os anos 1990.

– A metrópole moderna exige que os investimentos em mobilidade urbana estejam no mesmo patamar que áreas como educação, saúde, segurança. Belém está caminhando neste sentido – afirma Evany Alves, diretora de transporte da superintendência executiva de mobilidade urbana. – Colocamos o projeto do BRT como prioridade na nossa gestão municipal, em parceria com Governo do Pará. Terminar a obra é  urgente, pois nossa infraestrutura está aquém da necessidade da população que precisa ir trabalhar, estudar, voltar para casa. Isso traz problemas socioeconômicos em série, e pretendemos corrigi-los.

Na prática já existe algumas estações e ônibus circulando em vias segregadas, mas apenas num trecho de menos de cinco quilômetros, que nem de longe alivia os gargalos de transporte da capital. De acordo com o que foi planejado, quando estiver em operação, dois grandes corredores vão permitir que trajetos sejam encurtados. Significa dizer, por exemplo, que a viagem entre Marituba e Belém, que hoje dura duas horas, será feita em cerca de 40 minutos. As estimativa é que o sistema consiga atender até 350 mil pessoas por dia ao longo dos 46 quilômetros de extensão. Os veículos articulados têm capacidade para carregar até 170 passageiros e contam com ar-condicionado, uma demanda no transporte público antiga.

– O BRT é uma solução que vem em boa hora. Eu acho que já perdi uns seis anos da minha vida dentro do ônibus. Dava para ter feito muita coisa usando esse tempo. Quero agora recuperar o tempo que gastei – diz a auxiliar de serviços gerais, Sebastiana dos Anjos, de 52 anos, moradora de Marituba.

Se o investimento em mobilidade garante a melhora na qualidade dos transporte, há também uma série de efeitos colaterais positivos com o impacto nos gastos. De acordo estimativas da Consultoria Economic Development, a cada R$ 320 milhões de reais investidos em mobilidade urbana, são criados 3,6 mil empregos diretos e U$S 576 milhões de reais são adicionado ao PIB do país. Setores como comércio e restaurantes, juntos, veem sua demanda aumentar em cerca de 15%, na região onde houve investimento. O estudo ainda aponta impactos no longo prazo: a economia nos custos da família e o ganho na produtividade do trabalhador devido ao aumento na confiabilidade no horário de chegada no emprego.  

– Os impactos do transporte público são enormes, mas aqui no Brasil ainda há uma mentalidade de que ter carro é sinônimo de conforto. Isso precisa mudar. Porque não adianta investir em transporte público se ninguém os utiliza. Tem que haver uma migração do carro para os ônibus. Uma cidade inteligente e preparada para o futuro tem uma rede de transporte eficiente – afirma a professora Patricia.

Os números, porém, mostram que não será fácil mudar a mentalidade, principalmente numa cidade que a frota só aumenta. De acordo com dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), na capital do Pará a frota de veículos particulares cresce, em média, 11% ao ano – a quarta mais alta do país.

– Eu tenho carro, mas poderia vir para o trabalho de ônibus porque o BRT passará na área onde eu trabalho. O projeto é interessante e tenho que certeza que vai atrair as pessoas para o transporte público. As obras estão em andamento e a população começa a ficar ansiosa para tudo ficar pronto logo. Espero que daqui para frente mais projetos de transporte assim ganhem força no Pará – afirma a engenheira Elizabeth Andrade.  

MORAR PERTO DO TRABALHO

A mobilidade urbana eficiente, sem dúvida, é um dos caminhos para uma cidade melhor. Contudo, políticas públicas que incentivem trabalhadores a morarem próximo ao trabalho também teria grande impacto na qualidade de vida da população. Segundo o arquiteto e urbanista Estevão Menegaz, uma política habitacional que privilegie a ocupação de áreas mais próximas do centro da cidade, por exemplo, reduziria custos de ampliação de infraestruturas, custos e horas deslocamento.
– É sempre mais interessante para a cidade essa sobreposição de camadas: moradia e trabalho.  O que se perde nestes deslocamentos diários de casa ao trabalho nas grandes cidades hoje vai além de custos de infraestrutura e combustível. Pense em quanto tempo somente uma pessoa perde no trânsito por ano. Multiplique por alguns milhões de habitantes em uma única metrópole. São horas e horas perdidas de trabalho, lazer, esporte, família. Como quantificar essa perda?  É incalculável.

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