Fernando Haddad: “A extrema-direita nunca ligou para a educação”

Ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad é a provável escolha do PT para a corrida presidencial caso Lula se ausente da disputa. Em entrevista exclusiva, ele falou sobre suas conquistas na gestão pública, fez críticas a Michel Temer e ao próprio PT, defendeu ajustes na delação premiada e alfinetou seu sucessor João Doria
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Durante os 14 anos do governo do PT, Haddad comandou a pasta da Educação por sete anos, antes de se tornar prefeito de São Paulo

Por Renan França e Sergio Marcondes

Fernando Haddad (PT-SP) diz ter sido melhor prefeito de São Paulo do que ministro da Educação. Mas foi à frente da pasta que deu nova cara ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que o político ganhou projeção nacional. Inclusive, não poupa elogios a si mesmo. “Não houve tema que deixamos de enfrentar, por isso meu trabalho ficou muito marcado na cabeça das pessoas”, diz Haddad, após sentar-se em um restaurante na hora do almoço, reduto de universitários, na Vila Olímpia.

Apesar do sucesso como ministro, o último resultado nas urnas, depois de um mandato como prefeito de São Paulo, frustrou os planos de Haddad: com uma derrota acachapante no primeiro turno, enterrou a chance de seguir liderando a maior cidade do país. Há quem diga que a derrota foi causada em grande parte pela crise ética de seu partido, o PT. Haddad prefere acreditar que os paulistanos demoraram a entender o elogiado projeto de cidade de sua administração.

Enquanto bebe um expresso, ele se desculpa pelo atraso na entrevista, alegando que dava aula, e volta a falar de política – desta vez, sobre o futuro do país. “As pessoas estão polarizadas, não sei bem o que esperar de 2018. Quando a gente observa os candidatos e o que estão fazendo os atuais políticos…”, fala, contrariado.

Haddad é o primeiro entrevistado da série “Personagens da política para 2018”, série do site socioeconomia.org que discutirá temas socioeconômicos com lideranças políticas. A próxima entrevista, prevista para ser publicada em dezembro, será com João Amoêdo, líder do Novo, partido que apresenta candidatos sem carreira política que defendem um modelo econômico liberal. Na sequência, será a vez de Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em São Paulo e possível candidato do PSOL à presidência em 2018.

Com um ar de preocupação sobre o futuro da política brasileira, Haddad cruza, numa quinta-feira ensolarada, a Rua Quatá, em São Paulo. Suas passadas largas, compatíveis ao 1,85m de altura, levam-no rapidamente em direção ao prédio do Insper, instituição de Ensino Superior focada na área de Economia e Negócios. Lá, Haddad é professor do núcleo de Políticas Públicas, onde dá aula duas vezes por semana. “Aqui funciona o meu gabinete, onde recebo as pessoas para discutir o país”, diz o acadêmico-político, que em maio se licenciou do cargo de professor doutor da Universidade de São Paulo (USP).

Quem o vê circulando em meio aos alunos, quase esquece que, até pouco tempo atrás, aquele professor tinha na agenda o desafio de gerir o enorme município de 12 milhões de habitantes, sua cidade natal. Entre 2013 e 2016, fez da mobilidade urbana sua principal plataforma política, até perder a eleição para o empresário João Doria (PSDB). “Minha gestão da prefeitura de São Paulo faz mais sucesso fora que dentro. Sou muito elogiado quando viajo pelo país. Depois que eu saí, as pessoas estão entendendo melhor a minha gestão”, brinca.

Filho de libaneses, Haddad é casado e tem dois filhos. Aos 18 anos, entrou para a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da USP, onde deu início à sua militância estudantil. Após a graduação, tornou-se mestre em Economia e doutor em Filosofia. Hoje, aos 54 anos, é visto como um dos melhores quadros do Partido dos Trabalhadores para chegar à Presidência da República, mas um fator impede que ele seja apontado como o grande favorito à indicação: Lula.