A importância do Fórum Mundial da Água para garantir a segurança hídrica

Por Benedito Braga

A disponibilidade de água é um dos principais indicativos de qualidade de vida e de potencial de desenvolvimento econômico de uma região. A presença de recursos hídricos determina se dada região pode desenvolver atividades como agricultura e indústria, se pode gerar energia elétrica e se pode receber ocupação urbana como moradias e comércio.

De acordo com as Nações Unidas, ainda hoje 600 milhões de pessoas não têm acesso a água potável e perto de 2 bilhões não têm saneamento. Esses números tendem a aumentar em vista dos impactos das mudanças globais ligadas ao clima e à urbanização. Já segundo o Banco Mundial, para que o planeta todo tenha acesso a abastecimento de água e saneamento até 2030 seria necessário um investimento aproximado de US$ 50 bilhões anuais.

A crise da água no mundo não é apenas uma ameaça em si mesma, mas um risco múltiplo, envolvendo saúde, produção de alimentos e geração de energia, entre outros campos, e se refletindo diretamente na estabilidade política e social. Superar esses desafios é um chamado para as lideranças nos mais altos níveis governamentais em todo o globo. Devemos unir esforços para dar à questão da água e do saneamento a importância que ela merece.

O benefício direto de se atingir a segurança hídrica em nível global seria um crescimento da economia mundial de 0,5%, o que significaria um incremento de US$ 500 bilhões anuais de riqueza produzida. Também é importante ressaltar a relação direta que a água tem com o bem estar da população: a cada R$ 1 investido em água e saneamento, são economizados de R$ 4 a R$ 10 no setor de saúde.

Essa conscientização e a necessidade de se estabelecer estratégias e ações para preservar os recursos hídricos e garantir a sua disponibilidade para cada vez mais pessoas foi o motor da criação do Conselho Mundial da Água, em 1996. Hoje, ele reúne mais de 350 organismos no mundo inteiro, entre representações governamentais, entidades de pesquisa, de fomento e de ativismo socioambiental, além de empresas públicas e privadas que atuam no setor. O trabalho de mobilização do Conselho no âmbito das Nações Unidas foi fundamental para que a Assembleia Geral aprovasse em 2010 uma resolução reconhecendo acesso à água potável e saneamento como um direito humano.

Anualmente, o Conselho realiza e participa de dezenas de eventos no mundo inteiro, propondo discussões sobre a questão da água. O ponto alto desses debates é o Fórum Mundial da Água, que acontece a cada triênio. É o evento mais importante sobre o tema no mundo e no ano que vem será realizado no Brasil, em Brasília, de 18 a 23 de março, sendo esta a primeira vez no Hemisfério Sul.

Num encontro como esse é necessário ir além do reconhecimento da importância da água – é preciso encontrar meios técnicos, institucionais e financeiros para garantir a segurança hídrica no mundo em geral e em nosso país em particular. É preciso criar infraestrutura, governança e fontes de financiamento para que a segurança hídrica seja gerada e para que todos possam ter o acesso à água potável e ao saneamento. É fundamental que os políticos entendam que a questão da segurança hídrica é algo crítico para a população. Nós podemos ter tecnologia, podemos levantar recursos, mas se não houver vontade política de transformar água e o saneamento numa prioridade, nada vai acontecer realmente.

Felizmente, observamos hoje um maior engajamento da classe política em torno do tema, seja pelo temor das mudanças climáticas ou por uma conscientização crescente promovida por eventos de larga escala, como o Fórum Mundial da Água. Temos avançado cada vez mais no conceito da questão de segurança hídrica, no mundo inteiro. Segurança hídrica significa disponibilidade confiável em níveis aceitáveis de quantidade e qualidade de água para saúde e atividade econômica, conjugada a um nível também aceitável de riscos. Em outras palavras, significa proteger a sociedade de perigos associados a enchentes e secas – que deverão se tornar cada vez mais acentuadas – e garantir o acesso das pessoas à água, contribuindo para seu desenvolvimento social e econômico. Na questão do saneamento, os investimentos necessários são maiores, então é preciso buscar soluções técnicas, recursos e vontade política para realizá-los. Mas esse avanço exige infraestrutura e isso só se consegue com investimento de longo prazo. O que significa que nas próximas décadas precisaremos de mais infraestrutura, uso eficiente dos recursos, planejamento e governança fortalecida.

Os temas dos fóruns são sempre uma sequência de discussões, mantendo um diálogo constante e evolutivo. Por isso, a importância de darmos sequência ao que foi discutido na Coreia em 2015, chegando a Brasília 2018 para debater o tema “Compartilhando a Água”. Existem 261 países que dividem bacias hidrográficas e com esse recurso se tornando cada vez mais escasso, é importante criar políticas que permitam o seu uso racional em conjunto.

A troca de experiências realizada no Fórum ajuda a mostrar como cada país ou região está enfrentando determinado problema e quais soluções podem ser compartilhadas. Poderemos falar dos nossos comitês de bacia, que seguem o modelo francês, e que vêm se constituindo em verdadeiros parlamentos da água, com um debate aberto e inclusivo sobre as políticas, ações e investimentos no setor. Temos situações como na África Continental onde se tem os recursos naturais mas não a infraestrutura para gerenciá-los da melhor forma possível. É justamente esta combinação de falta de infraestrutura e administração dos recursos que não permite propiciar os serviços de saneamento a muitas pessoas. A América Latina em geral está no meio do caminho, ainda com regiões bastante desiguais dentro dos próprios países. Há áreas onde se avançou muito e outras onde há ainda muito por fazer.

O Fórum Mundial da Água é um evento que recebe todos atores interessados no tema da água, independentemente de suas visões ideológicas ou políticas. A oitava edição do Fórum em Brasília tem um programa temático envolvendo seis temas principais: Clima, Pessoas, Cidades, Desenvolvimento, Financiamento, Ecossistemas; e também três temas transversais: Governança, Compartilhamento e Educação. É um evento onde não existem posições pré-concebidas e onde todos têm voz e a oportunidade de apresentar sua visão em torno dos temas discutidos.

Em suma, a água é um tema que interessa a todos nós e por isso é importante que o Fórum Mundial da Água tenha uma grande participação. Seja dos representantes políticos, para que sejam sensibilizados e conscientizados; seja das áreas de pesquisa e fomento, para que seja criado o suporte necessário aos avanços; seja da população em geral, porque é o futuro de todos nós que estará sendo debatido.

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