Altamira e Cametá: histórias semelhantes, destinos diferentes

Altamira, no Pará, tinha uma história parecida com outra cidade do estado, Cametá. Mas após o crescimento de Altamira, onde foi instalada a Usina De Belo Monte, o município mudou - para pior

Estudo compara as taxas de violência de dois municípios com histórias parecidas / Foto: Wikicomons

Por Renan França 

Às margens do Rio Xingu, o município de Altamira, no Pará, era um recanto para seus moradores no início dos anos 2000. Lugar de cultivo de arroz e cacau, o maior município brasileiro em extensão chamava pouca atenção. Por lá, o ato mais marcante até esse período era a implantação do marco zero da Rodovia Transamazônica nos governos militares.

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A 600 quilômetros dali, Cametá, no leste do Pará, era praticamente um município-irmão. Com 97 mil habitantes (20 mil a mais que Altamira, na época), a cidade tinha indicadores socioeconômicos, como PIB e IDH, bem parecidos com os do gigante município banhado pelo Xingu.

Mas uma obra parece ter distanciado o destino das duas cidades: a hidrelétrica de Belo Monte.

Localizada em Altamira, o futuro terceiro maior complexo gerador de energia do mundo foi inaugurado parcialmente, em 2016, com a presença da então presidente da República, Dilma Rousseff. Mas o festejo pela inauguração da obra ganhou tons amargos diante da insegurança de quem vive na região.

Altamira é hoje o lugar onde mais se mata no Brasil, segundo o Atlas da Violência, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Enquanto isso, Cametá, que agora tem menos moradores do que a outra cidade, é um dos lugares mais pacíficos não só do Pará, como do Brasil.

– Não é possível afirmar que a obra de Belo Monte foi o que provocou o aumento no números de homicídios em Altamira, mas há uma ligação fortíssima entre o início da obra e, em paralelo, o crescimento das mortes – afirma o cientista social Jaime Cunha de Souza, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA). – Tanto que Cametá, que não recebeu nenhum grande empreendimento, continua no mesmo patamar.

Cametá tem menos moradores do que Belo Monte, e é um dos lugares mais pacíficos não só do Pará, como do Brasil / Foto: Wikicomons

ESCALA DOS NÚMEROS EM BELO MONTE

Os principais marcos de Belo Monte ajudam a estreitar essa análise. Em 2000, quando havia apenas estudos sobre a implementação da usina, ocorreram doze homicídios por 100 mil habitantes em Altamira. A partir daí, aos poucos, a construção de Belo Monte começou a se tornar realidade, e, ao mesmo tempo, as mortes começaram a aumentar exponencialmente.

Usina de Belo Monte, construída próxima ao município de Altamira, no Pará / Foto: Betto Silva, Banco de Imagens Norte Energia S.A.

Em 2009, ano em que a Eletrobras recebeu a Licença Prévia (LP), a primeira das três autorizações do processo de licenciamento ambiental, Altamira já figurava entre as cidades mais violentas, com 48 homicídios por 100 mil habitantes. Desde então, esses números cresceram consistentemente até chegar ao patamar de 105 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes em 2015.

Já nas praias de Cametá a preocupação com o crescimento da violência foi menor. Em 2015, a cidade teve 10 homicídios por 100 mil habitantes, estatística idêntica à da década anterior.

DISTANCIAMENTO ECONÔMICO

Além de realidades opostas em relação a homicídios, outro dado aprofunda as diferenças entre as duas cidades, só que desta vez, pelo menos nos números, favorável a Altamira. A partir de 2010, o Produto Interno Bruto (PIB) da cidade cresceu, saindo de um patamar de R$ 800 milhões de reais para quase R$ 4 bilhões em 2014 – uma alta de 369%. Enquanto que Cametá fechou o PIB de 2014 com R$ 841 milhões de reais – valor próximo ao de Altamira no período pré-Belo Monte.

– Com o crescimento de Altamira, imaginava-se que a vida das pessoas poderia melhorar. Só que isso não ocorreu. A riqueza não ficou aqui. (A Usina de) Belo Monte transformou a cidade para pior, e não vejo alternativa para contornar o problema. Faltou planejamento, faltou pensar sobre o impacto de uma obra gigantesca – afirma Antônia Melo, coordenadora do movimento Xingu Vivo para Sempre. – A Altamira do passado não existe mais. É uma cidade diferente e violenta, desde o início dos ano 2000, quando começou a ficar claro que a usina seria construída.

SECRETÁRIO ASSASSINADO

No ano passado, o secretário de Meio Ambiente de Altamira, Luiz Araújo, foi morto a tiros na porta de casa. Ele ocupava o cargo desde 2012. Na cidade, ele era considerado rígido em relação ao ordenamento ambiental. Foi responsável, por exemplo, por uma série de imposições, que incluíram multas a quem não respeitasse as novas regras. A exploração mineral e o desmatamento na área de atuação da secretaria também foram tratados com rigidez.

De acordo com o vice-presidente do Instituto Dialog, Sergio Marcondes, o que houve em Belo Monte não pode ser interpretado como um caso isolado. A história da implantação de grandes empreendimentos tem se repetido, em geral, em diferentes escalas do mesmo enredo.

– Os territórios ficam expostos a fluxos migratórios que alteram suas dinâmicas sociais, trazendo ou amplificando questões como ocupação desordenada do solo, criminalidade, entre muitas outras.

Marcondes também acredita que o caso de Altamira mostra com clareza o desencontro no tempo entre a ocorrência do fenômeno e disponibilidade para geri-lo.

– Quando se trata da implantação de grandes projetos, o simples anúncio do empreendimento já deflagra uma sequência de feitos sobe alguns elementos da dinâmica socioeconômica do território, tais como a atração de migrantes, o preço da terra e dos imóveis, entre outros. E esses efeitos vão sendo amplificados e multiplicados a cada passo visível da implantação do empreendimento.

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