Qual é a cidade mais contaminada do planeta?

Milhares de pessoas, principalmente crianças, são vítimas da elevada concentração de chumbo no meio ambiente
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Kabwe, na Zâmbia, é considerada a cidade mais tóxica do planeta. Fotos: Larry C. Price

Da Redação

O hábito de colocar as mãos sujas na boca, muito comum entre crianças, é um problema grave em Kabwe, na Zâmbia. Isso porque o local, que fica na Província de Copperbelt, enfrenta os resultados de quase um século de exploração de chumbo, zinco e cobre. Boa parte da população, estimada em 220 mil habitantes, vem sofrendo danos irreversíveis ao cérebro e a outros órgãos vitais devido a altas concentrações de metais tóxicos no organismo. Segundo estudos que medem indicadores de poluição, as crianças e os jovens que brincam e trabalham ao ar livre são os mais vulneráveis. Especialistas da área reconhecem a cidade como a mais tóxica do planeta.

As atividades de mineração e fundição começaram em 1902 e fizeram com que Kabwe progredisse e se tornasse a segunda maior cidade do país africano. Na época, o governo não levou em consideração os impactos sobre os moradores. A empresa estatal fechou em 1994, mas, até hoje, o legado é de cerca de 6,5 milhões de toneladas de resíduos acumulados no solo – principalmente na chamada Black Mountain (Montanha Negra), onde catadores usam picaretas e pás para buscar na escória pedaços de chumbo e de minérios de alta qualidade para revender e conseguir um pequeno lucro.

Crianças e adolescentes muitas vezes estão entre os trabalhadores que procuram por alguma subsistência na terra contaminada, colocando a saúde em risco. As brincadeiras também são em espaços com grande concentração de substâncias nocivas. É nesse contexto que eles acabam engolindo, desde os primeiros anos de vida, o chumbo, neurotoxina usada na fabricação de baterias para carros. O resultado começa a aparecer em sintomas como febre, dores de estômago, perda de peso e falta de concentração.

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O nível tolerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de chumbo no sangue de crianças é de 5 ug/DL e níveis superiores a 120 ug/DL podem ser fatais; em algumas partes de Kabwe, foram registradas taxas de 200 ug/DL. Não há cura para o envenenamento do sangue e as consequências mais graves disso são os casos de paralisia e morte. Os esforços para remediar a situação, na medida do possível, envolvem a redução do tempo de permanência dos jovens ao ar livre e a intensificação da lavagem de mãos e roupas.

A situação de Kabwe vem sendo abordada com mais frequência desde 2007, quando apareceu pela primeira vez no relatório dos “10 lugares mais tóxicos do planeta Terra”, elaborado pelos institutos Blacksmith e Green Cross Switzerland. Uma segunda pesquisa foi divulgada em 2013 e Kabwe permanecia na lista. Embora o estudo não estabelecesse um ranking, pesquisadores da área de poluição sustentam que a cidade africana tem o dramático posto de lugar mais tóxico do mundo devido ao elevado número de vítimas  – algo em torno de 300 mil ao longo dos anos. Os institutos apontam também que, juntando os dez locais listados, são mais de 200 milhões de pessoas correndo risco de saúde em países de baixa e média renda.

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CHERNOBIL, UCRÂNIA

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Em 1896, Chernobil passou pelo maior desastre nuclear da história, quando os testes em uma central elétrica resultaram em uma explosão do núcleo do reator. Foram mais de 10 milhões de pessoas prejudicadas e 150 mil km² de terra afetados. Até hoje, os índices de radioatividade são altíssimos e uma zona de exclusão ao redor do local permanece quase inteiramente desabitada. Acredita-se que o acidente foi responsável por aproximadamente 4.000 casos de câncer de tireoide.

 

DZERZHINSK, RÚSSIA

Dzerzhinsk foi um dos principais lugares de fabricação de armas químicas da Rússia durante a era soviética. Entre 1930 e 1998, cerca de 300 mil toneladas de resíduos químicos foram despejadas na cidade e em áreas circundantes, chegando a águas subterrâneas. Em 2007, amostras de água revelaram níveis de dioxinas e fenol milhares de vezes acima do nível recomendado, sendo imprópria para consumo. Hoje, ainda é um centro relevante de indústria, com emissões de poluentes que contribuem para um alto índice de cânceres e doenças nos olhos, pulmões e rins.

 

AGBOGBLOSHIE, GANA

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O distrito de Agbogbloshie, localizado em Acra, capital de Gana, é um grande lixão de eletrônicos. Anualmente, cerca de 250 mil toneladas de produtos descartados – computadores, geladeiras, microondas e televisões, por exemplo –chegam à região, vindos da Europa e da América do Norte. As pessoas que vivem lá buscam nessas carcaças peças que podem ser recuperadas e revendidas, além de metais como prata, aço e cobre. Esses resíduos eletrônicos não passam por uma reciclagem apropriada, apresentando riscos ao meio ambiente e à saúde da população. A fumaça resultante da combustão dos lixos eletrônicos contamina o ar, o solo, as águas do Rio Odaw e os alimentos comercializados, deixando os indivíduos expostos a elevadas quantidades de substâncias tóxicas, principalmente chumbo e dióxido de carbono.

RIO MATANZA-RIACHUELO, ARGENTINA

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Com base na lista divulgada em 2013, somente um dos 10 lugares mais tóxicos do mundo fica no continente americano – na América do Sul, especificamente. O Matanza-Riachuelo é um rio situado na cidade da Buenos Aires, que, com mais de 60 quilômetros de extensão, atravessa 14 municípios. Estima-se que 15 mil indústrias liberem ativamente resíduos poluentes nas águas do rio, principalmente as fabricantes de produtos químicos. Nas margens da bacia, são detectados níveis acima do recomendado de zinco, cobre, níquel, chumbo e cromo.

O Banco Mundial divulgou em abril de 2017 um documento sobre o Projeto de Desenvolvimento Sustentável da Bacia Matanza-Riachuelo. O programa defende o tratamento das águas, a redução das descargas industriais, os investimentos em drenagem urbana e uso da terra, e a limpeza contínua do rio argentino. A expectativa é de que essa iniciativa colabore na melhoria das condições de vida da população pelos próximos anos.

*Top Ten Toxic Threats (2013), pesquisa elaborada pelos institutos Blacksmith e Green Cross Switzerland.

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