Açaí: o fruto que move o Pará

O negociador Raimundo Monteiro é uma das figuras mais conhecidas e respeitadas da feira do açaí em Belém. De domingo a domingo, ele é o elo entre produtores e compradores do fruto, vendendo toneladas de uma das maiores riquezas do Pará. Já o produtor Valdenor Ribeiro Lobato aprendeu a cultivar o açaí desde cedo com o pai. Mesmo assim, confessa que nunca imaginou que poderia viver da plantação e venda da mercadoria. Hoje, ele é considerado um dos maiores produtores rurais da Região Metropolitana de Belém. A seguir o ponto de vista de cada um dos especialistas sobre o tema

Por Raimundo Monteiro, negociador

“O açaí é o ouro do Pará. Por esse motivo, muita gente se interessa em trabalhar com o fruto para garantir a renda de uma família. Quem está há anos envolvido nesta cadeia, garante que aos trancos e barrancos foi criado um sistema onde todo mundo que trabalha duro consegue ganhar um pouco. Em Belém, a Feira do Açaí, ao lado do Ver-O-Peso, funciona como porta de entrada para 70% da produção de açaí do estado. Mas, até chegar ali, a mercadoria já passou na mão de muita gente que ficou satisfeita com a negociação. O mercado é informal, mas as pessoas da cadeia fazem a economia girar. Um depende do trabalho do outro, talvez por isso ninguém queira dar calote em ninguém.

É difícil dizer quem é mais importante neste jogo de tabuleiro que tem mais de 200 mil pessoas envolvidas. Mas, sem dúvidas, os barqueiros que compram toneladas de açaí numa cidade do interior, e vem para Belém vender, são uma peça fundamental no negócio. Além de serem proprietários de barcos e colocá-los na água, precisa fazer um investimento inicial para adquirir açaí. Depois disso, é necessário ter cuidado para conservá-lo durante algumas horas até chegar em Belém. Se algo der errado na viagem, o prejuízo é do barqueiro, mas todo mundo que depende da chegada do açaí também não ganha nada.

Há pessoas que menosprezam o trabalho do negociador, argumentando que são remunerados “sem fazer esforço”. Mas é um engano pensar desta forma. O negociador, que espera pela mercadoria em Belém, garante que o trabalho será continuado. Ou seja, que a carga terá comprador. Graças ao relacionamento de vários anos com uma rede de contatos, muitas vezes toneladas de açaí chegam à Belém praticamente vendidas. No porto, o barqueiro não precisa nem se preocupar em descarregar o barco, pois o negociador possui uma equipe remunerada para isso. O dono do barco pode sentar e esperar os lucros porque eles vão vir. Isso é certo.

Para quem está de fora, talvez, pense que existe uma certa exploração. Mas, cada um recebe um pedaço daquilo que produz ou que negocia.

Raimundo Correa

Quem compra a mercadoria do negociador (que recebe 5% do valor total pela transação) são comerciantes que possuem as máquinas de moer o fruto. Dali em diante, o preço que cada um cobra por um frasco de 1 litro é problema de cada pessoa. Para quem está de fora, talvez, pense que existe exploração. Mas, cada um recebe um pedaço daquilo que produz. Quem quiser entrar na cadeia, tem espaço. É só respeitar o lugar de quem fez isso a vida toda”.

Valdenor Ribeiro Lobato, de 61 anos

“Herdei do meu pai a tradição de ser produtor de açaí. Quando criança, era difícil imaginar o tamanho da riqueza que tinha em mãos, mas hoje sei que o plantio permite que milhares de pessoas se beneficiem, comprem comida, criem família e até acumulem um bom dinheiro. Creio que não há uma cadeia produtiva tão organizada como a do açaí, que permita todo mundo ganhar. Claro, alguns mais, outros menos, mas é um negócio altamente rentável para todos. Ou seja, por trás da economia, existe uma função social.

Claro que grande parte dos produtores também ambicionam ter mais lucros. Por isso, quem consegue assumir dois estágios na cadeia produtiva acaba fazendo mais dinheiro. Nos últimos anos, tem sido mais comum o produtor vender sua produção para um negociador em Belém, descartando o serviço de um barqueiro, que tinha como função levar o açaí do local produzido até a capital. Essa iniciativa requer um investimento alto, por exemplo, em um barco, mas eu diria que os lucros até dobram.

Grande parte dos produtores também ambicionam ter mais lucros. Por isso, quem consegue assumir dois estágios na cadeia produtiva acaba fazendo mais dinheiro. Nos últimos anos, tem sido mais comum o produtor vender sua produção para um negociador em Belém, descartando o serviço de um barqueiro, que tinha como função levar o açaí do local produzido até a capital

Valdenor Lobato

Não há razão para ter algo contra quem deseja explorar economicamente a cadeia. Veja, por exemplo, o caso dos exportadores. Centenas de empresários vem ao Pará para comprar toneladas de açaí com o objetivo de mandar para fora do país, principalmente para os Estados Unidos e para a Ásia. Graças ao espírito empreendedor deles, o açaí foi alçado como produto com demanda mundial e toda a cadeia se beneficiou disso, pois a produção e as vendas foram aceleradas. Se os exportadores lucram mais, mérito deles. O gasto para mandar o açaí para fora é alto e sempre há um risco. 

Vale lembrar também que a cadeia também se transforma. Antigamente, o sonho de quem cultivava açaí era comprar um pedaço de terra e ser um produtor. Hoje, pelo altos lucros, quem tem conhecimento de abrir um escritório em outro país, quer ser exportador. Mas, na minha opinião, ser produtor dá trabalho, precisa comprar terra, ser paciente. Mas é bom. Quem já produz não há por que trocar de lugar na cadeia”.

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