Como funciona o cartão de débito criado para a favela

O serviço é destinado aos moradores que desejam pagar contas via maquininhas, mas não conseguem comprovar renda
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Lançamento oficial para todo o país do Cufa Card ocorre no final de setembro / Foto: Divulgação

Por Camila Nogaroli*

Um cartão ligado a uma conta bancária sem a mediação de uma instituição financeira tradicional. Este é o formato do Cufa Card, desenvolvido pela Favela Holding, grupo de empresas voltadas para o empreendedorismo em comunidades dirigido pelo fundador da Cufa Celso Athayde, e a Conta Um, especializada em soluções financeiras digitais. O serviço é destinado aos moradores de favelas e periferias que desejam pagar contas via maquininhas, mas não conseguem comprovar renda – um dos pré-requisitos exigidos por boa parte dos bancos. O cartão, que será lançado para todo o país no dia 26 de setembro, tem apenas a função de débito e pode ser adquirido até por quem está com o “nome sujo”.

O Cufa Card contou com um lançamento piloto em 32 comunidades da região metropolitana do Rio de Janeiro, para avaliação de público. Em apenas uma semana de operação, foram adquiridos os 30 mil cartões disponibilizados, número esperado para um período de três meses.

Uma das vantagens que o produto oferece é que, por funcionar no esquema pré-pago, há menor risco de as pessoas se endividarem, tal como ocorre na modalidade de crédito. O processo de aquisição tem pouca burocracia, não exigindo do usuário mais do que a inscrição, com informações como endereço e CPF, e o pagamento de uma taxa de adesão de R$12 mais R$6 de frete. O programa promete ser uma ferramenta contra a bancarização e a favor da inclusão social.

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O projeto teve início após uma pesquisa da Favela Holding apontar que 60% das pessoas que não têm conta bancária no Brasil moram em comunidades. Ou seja, com poucos produtos financeiros disponíveis no mercado para pessoas que não conseguem comprovar renda, o principal meio de pagamento nas favelas ainda é dinheiro vivo. Visando o público desses locais, as empresas responsáveis criaram a rede Cufa Card de contas eletrônicas e cartões físicos pré-pagos. O nome foi licenciado pela Cufa, a Central Única das Favelas, que atua nos âmbitos político, social, cultural e esportivo em todos os estados brasileiros e em outros 17 países.

COMO FUNCIONA?

Quem deseja obter um Cufa Card deve solicitá-lo, por enquanto, pelo site (www.cufacard.com.br). O envio é feito pelos Correios. A partir do lançamento oficial, em setembro, será possível adquiri-lo junto a representantes responsáveis pela venda do cartão. Não há consultas ao SPC ou ao Serasa para checar quem está com dívidas inscritas.

O usuário ganha uma conta bancária digital, onde pode depositar qualquer valor. Com saldo positivo, é possível sacar em caixas eletrônicos 24 horas, comprar pela internet ou em qualquer estabelecimento que aceite a bandeira MasterCard. Com o cartão é possível também fazer transferências sem custos para contas da mesma bandeira, visualizar o saldo via aplicativo, pagar faturas online e colocar créditos no celular.

INICIATIVA CONTRA A BANCARIZAÇÃO DO SISTEMA

O objetivo da iniciativa é de inclusão social e financeira. Primeiramente, segundo a Favela Holding, porque a parcela da população favorecida é aquela excluída pelo sistema bancário tradicional devido às exigências para abertura de contas. Esse serviço tem menos burocracia e permite que as pessoas contemplem outras opções para lidar com o próprio dinheiro. Além disso, comerciantes são beneficiados, já que, com uma máquina especial para passar o Cufa Card, podem receber pagamentos à vista e sem taxa (máquinas de outras operadoras ganham de 4% a 12% de taxa). Isso incentiva a geração de negócios, empregos e consumo – consequentemente, uma movimentação econômica maior dentro das áreas que adotam o projeto.

– A falta de acesso a serviços bancários é, ao mesmo tempo, um efeito e uma causa, e está no centro de um ciclo vicioso de exclusão social. O pobre não tem como comprovar renda e, por isso, ou não tem acesso a serviços bancários e crédito ou paga mais por isso. Quando conseguem, estão expostos às taxas de juros mais altas do mercado, o que dificulta as condições de pagamento. Quando não pagam, ficam com o ‘nome sujo’ e passam a ter mais restrições. O resultado é a quase total falta de acesso a serviços bancários nas favelas brasileiras – afirma Sergio Marcondes, vice-presidente do Instituto Dialog.

O cartão tem uma mensalidade de R$8, que é descontada automaticamente da conta do usuário. Uma das formas que a empresa viu para estimular o pagamento da taxa mensal foi oferecer R$10 em crédito de celular. A ideia para isso partiu de uma pesquisa que apontou que 93% dos moradores das favelas usam cartão de celular pré-pago. Mas o pagamento também não é obrigatório. Caso a pessoa não tenha dinheiro na conta para pagar em determinado mês, ela não acumula dívida para o próximo. Neste caso, também fica sem receber os créditos para celular.

Um cartão piloto, para avaliação de público, foi adotado em 32 comunidades da região metropolitana do Rio de Janeiro. Em uma semana, foram adquiridos os 30 mil cartões que eram para ser vendidos em três meses. O lançamento oficial, agora para todo o Brasil, será no dia 26 de setembro.

De acordo com Celso Athayde, diretor da Favela Holding, o modelo de operação do Cufa Card precisou ser bastante estudado para ser adaptado à realidade da favela.

– O Cufa Card é uma empresa de negócios na internet e não de cartão, como um banco que ganha dinheiro em todas as pontas. Pesquisamos muito e ajustamos nosso modelo, abrindo mão desse recurso para trazer uma nova oportunidade. Dispensamos a taxa da maquininha Cufa Card, assim como a taxa de transferência entre contas. Se a pessoa não paga a mensalidade, não acumula dívidas. Como o usuário tem uma conta digital, na qual mexe via celular, há um marketing, propagandas de empresas parceiras vendendo seus produtos – explicou Athayde ao socioeconomia.org

Como a bandeira do cartão é MasterCard, ele pode ser passado em outras máquinas de cartão. Neste caso, um percentual da transação vai para o bolso das empresas que desenvolveram o projeto. Outra forma de arrecadação é a negociação com as operadoras de telefonia Vivo, Oi, Claro e Tim. Como a compra de créditos de celular é feita em grandes volumes, as empresas conseguem tirar um percentual do lucro da operação.

*Estagiária sob supervisão do editor Renan França

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