Como pensar a problemática de gênero nos grandes empreendimentos?

Por Livia Hoffmann

Quando um grande empreendimento se instala em um município é comum que a geração de emprego e renda seja apresentada como principal benefício para aquela população. Na teoria, espera-se que tais benefícios possam atingir tanto homens quanto mulheres, mas na prática os homens têm sido os principais beneficiários diretos, visto que os perfis profissionais demandados para a construção e operação dos empreendimentos são, em grande parte, em funções tradicionalmente masculinas: pedreiros, soldadores, mecânicos, carpinteiros, eletricistas, armadores e montadores, operadores de equipamentos, auxiliares, assistentes e ajudantes da construção civil e de processos industriais.

Ainda que não sejam impedidas diretamente de ter acesso a estas vagas, a ocupação de mulheres nesse espaços irá, frequentemente, esbarrar numa barreira social: os estereótipos de gênero que definem alguns trabalhos como femininos e outros como masculinos. Nesse sentido, é fundamental a compreensão de que as relações de gênero – que são ao mesmo tempo estruturantes e transversais à totalidade do campo social – são ativas também no trabalho e se exprimem através da divisão sexual do trabalho.

Ao contrário do que possa parecer ao senso comum, esta divisão não é natural e sim modulada histórica e socialmente. Ainda que suas modalidades concretas variem grandemente no tempo e no espaço, a divisão sexual do trabalho segue a linha de demarcação dos espaços masculinos e femininos.

Na prática, isso resulta numa distribuição diferencial de homens e mulheres no mercado de trabalho, com a ausência de um dos sexos em determinados espaços e a sobrerrepresentação de um dos sexos em outros. O gráfico abaixo ilustra como as vagas nas áreas da construção civil e da indústria de transformação são ocupadas majoritariamente por homens.

Número de Empregos Formais, Variação Absoluta e Relativa por Setor de Atividade Econômica segundo Sexo do Trabalhador | Fonte: Fonte: RAIS – Dec. 76.900/75 URL.: http://pdet.mte.gov.br/index.php/caged

A divisão sexual do trabalho opera a partir de dois princípios organizadores: o princípio de separação, segundo o qual existem trabalhos de homens e trabalhos de mulheres; e o princípio de hierarquização – um trabalho de homem “vale” mais do que um trabalho de mulher. Assim, a divisão sexual do trabalho não irá definir, portanto, apenas o que se faz, mas também o salário e a qualificação de quem faz.

Estes princípios podem ser aplicados graças à ideologia naturalista que reduz o gênero ao sexo biológico, remetendo a um “destino natural da espécie”: as mulheres teriam mais habilidades para determinadas atividades, especialmente aquelas relacionadas à esfera reprodutiva; os homens teriam outro tipo de habilidades, sendo designados prioritariamente à esfera produtiva. É assim que a divisão sexual do trabalho traz o discurso de adequação de feminino e masculino, quando, na realidade, é um conjunto de modalidades diferenciadas de socialização que constrói papéis sociais e “qualidades femininas e masculinas” que sejam coerentes com as atribuições dadas a cada um.

Desde cedo, no âmbito familiar e na educação escolar, e depois mais tarde, na formação no trabalho, a socialização é, em geral, muito orientada pelos papéis tradicionais de gênero, construindo para as mulheres, por exemplo, competências relacionadas ao cuidado, em detrimento de outras habilidades associadas aos homens.

Assim surgem as definições de trabalho “leve” ou “delicado” como um trabalho de mulher, em oposição ao trabalho pesado, realizado por homens. Da mesma forma, são criados os discursos de maior adequação das mulheres ao trabalho doméstico, que resultam em uma divisão desigual deste trabalho entre os sexos.

Como consequência desse processo de socialização, muitas mulheres podem não se reconhecer em funções tradicionalmente masculinas. E, mesmo aquelas que se interessam por estas funções, e/ou possuam as habilidades necessárias para desempenhá-las, precisarão transpor as barreiras sociais dos estereótipos de gênero, expressas em práticas mais ou menos diretas que dificultam o acesso dessas mulheres a estas vagas (como exigências de formação específica ou experiência anterior, discriminações, desincentivo familiar etc.).

A oferta de qualificação para mulheres nessas áreas e a reserva de cotas para elas nas vagas geradas pelos grandes empreendimentos poderiam ser propostas para minimizar, em parte, essa dificuldade de acesso.

No entanto, para além deste tipo de proposta prática, é preciso que a abordagem de gênero seja discutida mais profundamente, como uma questão transversal aos processos de licenciamento e implantação  desses empreendimentos.

Desconsiderar esta problemática não é apenas deixar de contribuir para a diminuição das desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho. É também reforçar as desigualdades sistemáticas que, de forma mais ampla, mantém estável todo um sistema de gênero onde os homens ocupam uma posição de dominação em relação às mulheres.

ACESSE NOSSOS CONTEÚDOS DA SÉRIE DESIGUALDADE DE GÊNERO:

1ª Parte | Quando a mulher vira mercadoria 
2ª Parte | Artigo: Mulheres e Grandes Empreendimentos 
3ª Parte | As barreiras do gênero no esporte
4ª Parte | Artigo: Como pensar a problemática de gênero nos grandes empreendimentos?
5ª Parte | Ibama vai incluir gênero no processo de licenciamento

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