Como Nova York combateu as cracolândias que se multiplicaram pelos bairros da cidade?

A cidade americana viveu uma epidemia de crack nos anos 1980 e escolheu adotar medidas duras para reprimir a droga
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No início dos ano 1990, para tentar resolver o problema, a prefeitura de Nova York declarou uma guerra às drogas / Foto: Wikicomons

Da Redação

Há um mês, a operação policial na região da Cracolândia, em São Paulo, produziu imagens que competiram com o noticiário nacional. Agentes da Polícia Civil entraram à força em casas, pensões e barracas, provocando correria dos dependentes químicos que moravam na região. Cerca de 50 pessoas foram presas. Durante aquela tarde, após a “limpeza” da área, o prefeito João Doria (PSDB) decretou que a Cracolândia, enfim, havia acabado.

Só que situação não seguiu como planejado. Na semana passada, usuários que se espalharam pela capital após a operação retornaram ao local de onde foram expulsos. Mas, afinal, é possível acabar com o crack?

Uma cidade que nas últimas décadas enfrentou o problema e conseguiu combatê-lo de forma efetiva foi Nova York. Em meados do anos 1980, a droga chegou à cidade depois de passar a ser consumida em locais como Miami e Los Angeles. Mesmo assim, ainda era um problema desconhecido pelas autoridades.

Ao chegar na Big Apple, o crack começou a ser consumido nas ruas do Bronx, distrito pobre da metrópole americana, e como era uma droga considerada barata, se espalhou rapidamente pelos bairros da cidade como Harlem, Washington Heights e Hell’s Kitchen.

CRACK EM ÁREAS NOBRES

A cracolândia mais famosa ficava no Bryant Park, coração de Manhattan, entre as ruas 40 e 42, a uma quadra da Grand Central, maior estação de trens do mundo e um dos cartões postais da cidade.

No início dos ano 1990, para tentar resolver o problema, a prefeitura de Nova York declarou uma guerra às drogas. Sob às ordens do então prefeito Rudolph Giuliani, foi instaurada a chamada Política de Tolerância Zero. Tão severa que até gente que dormia na rua, mesmo sem ter consumido droga, podia ser presa.

Para ser mais ostensiva no combate, a polícia de Nova York multiplicou por seis o número de agentes do Departamento de Narcóticos que tinham à disposição uma lei federal criada na época para prender quem fosse pego com cinco gramas de crack. Em dez anos, 900 mil pessoas foram para cadeia por envolvimento com drogas.

Mas as autoridades chegaram a conclusão que estavam enxugando gelo, pois as cracolândias da cidade não acabavam, apenas mudavam de lugar, como ocorre atualmente em São Paulo. Uma nova abordagem em três frentes mudou o panorama e foi o ponto de partida para acabar com aglomeração de consumidores de crack em Nova York:

O que foi feito?

1- Policias na cracolândia

A primeira medida foi colocar policiais nas áreas mais críticas de consumo de crack para fazer rondas a pé, às vezes à paisana, não com a intenção de prender, mas com o propósito de conhecer quem vivia na região e dar aos moradores uma sensação mínima de segurança. A ideia era que as pessoas vissem a presença do Estado no local.

2 – Prender o peixe grande do tráfico

A partir do momento em que os policiais passaram a conhecer a região, ficou mais fácil separar usuários de traficantes. Além disso, a estratégia permitiu prender os grandes traficantes para desarticular os vendedores de crack.

3 – Tribunal Terapêutico (Drug Court, em inglês)

A ideia surgiu na Flórida, mas foi o estado de Nova York que liderou a expansão e a institucionalização das drug courts nos Estados Unidos. O modelo consistia em um  tribunal especializado para atender usuários de drogas que eram pegos com uma pequena quantidade de crack ou outra substância proibida. Ao ser preso, o acusado podia ter a sentença reduzida ou até a ficha criminal apagada se não tivessem cometido delitos graves, como homicídios. Mas, para que isso ocorresse, era obrigatório frequentar um programa de internação voluntária, com regras e condições previamente estabelecidas entre o réu, advogado de defesa, a acusação e o tribunal. Hoje, há mais de 180 drug courts nos EUA. 

Visão de Jairo Werner, psiquiatra brasileiro, professor da UFF e da Uerj, que participou do programa de combate ao crack nos EUA, nos anos 1990

O que houve em São Paulo, há um mês, foi uma tentativa pontual de higienização e liberação do espaço físico, mas não uma ação para recuperar usuários. O grande problema, segundo ele, é que não houve uma retaguarda estruturada de apoio aos usuários.

Além disso, não se deve tratar dependentes químicos como um grupo isolado, pois isso provoca e reforça a criação de guetos, o que prejudica o tratamento. Jairo reforça que a epidemia de crack é um problema social, e que durante o tratamento é importante que a família do usuário esteja envolvida na recuperação.

O aspecto econômico é outra diferença que reforça o desafio na combate às drogas. O investimento em agentes e na estrutura de saúde para recuperar dependentes químicos precisa ser alto. Em um país com urgências sociais em várias áreas com o Brasil, torna-se mais difícil o investimento.

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