Desigualdade climática se desloca do eixo Norte-Sul para Urbano-Rural

De acordo com estudo, as taxas de urbanização dos países estão mais correlacionadas à emissão de carbono do que à produção de riquezas

À medida que as nações se urbanizam, as cidades emitem mais gases poluentes, afetando diretamente a população / Foto: Wikicomons

Da Redação

As cidades já foram consideradas líderes no processo de controle e combate ao aquecimento global. Mas a divisão econômica mundial entre hemisfério Norte e Sul – que, historicamente, pautou debates sobre urbanização e mudanças climáticas – pode ser ofuscada em breve por desigualdades relacionadas a uma disparidade potencialmente mais forte entre áreas rurais e urbanas: a emissão de dióxido de carbono.

Uma pesquisa recente com dados de 200 países, feita ao longo de cinco décadas, mostra que as taxas de urbanização dos países estão mais correlacionadas à emissão de carbono do que à riqueza (em termos de PIB per capita). De acordo com o estudo, conforme as nações se urbanizam, as cidades emitem mais gases poluentes, o que provoca o aumento desproporcional da poluição, comparando com a população de uma região.

Essa divisão rural-urbana está propensa a resultar em uma dinâmica mais local e também mais complexa. Isso será particularmente relevante para o mundo em desenvolvimento, o qual enfrenta o desafio triplo de urbanização rápida, justiça social e sustentabilidade ambiental.

Conforme as disparidades globais de emissão mudam de Norte-Sul para o eixo Urbano-Rural, há uma necessidade maior de colocar essas desigualdades locais e sub-nacionais em um nível nacional. Cidades em países urbanizados de renda-média emitem níveis comparáveis de dióxido de carbono per capita àquelas em países mais ricos, porém algumas áreas rurais nesses países de renda-média têm baixa ou até negativa emissão de carbono per capita.

Historicamente, a urbanização é relacionada à riqueza e ao consumo massivo de combustíveis fósseis que a acompanha. Alguns balanços indicam que mais de 70% dos gases de efeito estufa globais são produzidos em áreas urbanas, consumindo de 60% a 80% da energia mundial. À medida que o mundo passa por um deslocamento sem precedentes da população rural para urbana, o século 21 representa um desafio para abordar mais profundamente as desigualdades no acesso aos recursos e na distribuição das emissões de carbono.

Governantes internacionais do clima reconhecem a divisão “ter” e “não ter” entre os países em termos de emissão de carbono. Mas, focar nas desigualdades de emissão de carbono sob uma perspectiva urbano-rural distingue ainda mais o “não ter” e estabelece que nações “rurais” em desenvolvimento estão em desvantagem. Portanto, os índices de urbanização de um país, e não apenas a economia, também determinam suas emissões de carbono.

OS MAIS PREJUDICADOS

Os distritos rurais no Sudeste da Ásia são os mais desfavorecidos, com as taxas de eletrificação alcançando somente 69% e 26% das populações, respectivamente. As menores taxas de eletrificação estão na África Subsariana, com 17%. Isso tem implicações na configuração de um regime global mais justo para acabar com a pobreza energética, abordar as mudanças climáticas e alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (SDGs – Sustainable Development Goals) – o quadro geral da comunidade internacional para combater a pobreza –, devido a lacunas éticas, empíricas e governamentais relacionadas à dinâmica urbano-rural do carbono.

Enquanto isso, há uma previsão de que o crescimento populacional no restante deste século ocorra, principalmente, nas nações de baixa e média renda. Somente a Ásia viu um aumento de um bilhão de habitantes urbanos de 1980 a 2010 – mais do que a população da Europa Ocidental e dos Estados Unidos combinada –, e a expectativa é de que haja um aumento de mais um bilhão até 2040.

Assim, uma transformação radical e urgente na forma como construímos nossas cidades é necessária para evitar aumentos desproporcionais nas emissões de carbono e nas disparidades entre o acesso urbano e rural aos recursos.

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