Anderson Quack: “A favela não é um problema, é a solução”

O pré-candidato a deputado federal foi convidado para apresentar os ideais do partido Frente Favela Brasil. Criado na Cidade de Deus, Quack é diretor, escritor e um dos fundadores da Central Única das Favelas. Em entrevista exclusiva, falou sobre a própria trajetória, o assassinato de Marielle Franco, a falta de representatividade na Política brasileira e a importância de lutar pelo protagonismo de negros e de moradores de regiões periféricas
Anderson Quack é representante da Frente Favela Brasil, mas concorrerá pelo PSOL nas eleições de 2018 / Foto: socioeconomia.org
Anderson Quack é representante da Frente Favela Brasil, mas concorrerá pelo PSOL nas eleições de 2018 / Foto: socioeconomia.org

Por Camila Nogaroli e Sergio Marcondes

Nascido e criado na Cidade de Deus, Anderson Luiz Alves de Oliveira fala sobre desigualdade social como quem nunca conheceu outra realidade, mas segue com leveza, bom-humor e sabedoria em busca de mudanças. Convicto de que a favela precisa parar de ser tratada como um problema, transforma as experiências de 40 anos de vida em motivação para lutar por igualdade e justiça social.

Na verdade, ele atende por Anderson Quack (em referência ao Pato Quack, do desenho “A corrida espacial do Zé Colméia”), nome com o qual construiu a carreira de diretor de cinema, teatro e TV. Produziu os documentários “Falcão – Meninos do Tráfico” (2006) e “Remoção” (2014). É também escritor e autor do livro “No Olho do Furacão” (Aeroplano, 2010). Ao lado do amigo de infância MV Bill e do empresário Celso Athayde, contribuiu para a fundação da Central Única das Favelas (Cufa), onde atua como conselheiro.

Agora, inicia a trajetória na Política junto ao partido que ajudou a idealizar: a Frente Favela Brasil. Por não terem conseguido registro para as eleições de 2018, um acordo foi feito com o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), pelo qual Quack concorrerá ao cargo de deputado federal esse ano. Ele foi convidado para dar uma entrevista ao socioeconomia.org e apresentar os principais objetivos da Frente Favela enquanto ineditismo no contexto político brasileiro, considerando a ideologia voltada para o protagonismo de pessoas negras e de moradores de regiões periféricas.

Chegou para o encontro com sorriso no rosto, chapéu Panamá na cabeça e simpatia de quem se reúne com amigos de longa data. Acomodou-se com uma xícara de café puro e, ao ser questionado sobre suas motivações, declarou : “É muito bom quando já trazem uma pergunta sobre motivação. Isso me incentiva a revisitar a minha história”.

História cujo cenário principal é a famosa “CDD”, comunidade localizada na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Entre as ruas, praças e campos, o menino Anderson cresceu atento à realidade ao seu redor, escutando sobre desigualdade em casa e admirando os movimentos políticos e artísticos. E foi fazendo de tudo um pouco que agregou aprendizados à bagagem: já vendeu picolé, trabalhou em posto de gasolina e em barraca de praia, foi “boy” em centro de macumba e MC de baile funk, criou o primeiro serviço de mototáxi da favela e serviu à Aeronáutica. Entrou na PUC-Rio como funcionário, começou a assistir às aulas enquanto ouvinte e se realizou no curso de Cinema.

Mas Quack se põe no lugar de “exceção que confirma a regra” por ter conquistado tanto e almeja transformações nos campos micro e macro para que mais indivíduos como ele tenham a oportunidade de alcançar o que desejam. A decisão de entrar para a Política