Favela: estigma de violência, mas rica em expressões estéticas e culturais

Anitta, funk é proíbido, criminalização do funk, funk não é crime, estética da favela

Anitta voltou às origens com o clipe “Vai Malandra” e colocou a estética da favela em discussão / Foto: Divulgação

Por Jorge Luiz Barbosa

A cidade do Rio de Janeiro é notoriamente conhecida pelo seu cosmopolitismo cultural e sua importância nos roteiros turísticos nacionais e internacionais. Todavia, não é ocioso relembrar que as práticas culturais populares têm um papel decisivo na identidade da metrópole carioca. Dentre elas destacam-se o carnaval, o samba, o futebol e, mais recentemente, o charme, o funk e o hip hop. Expressões intimamente associadas a territórios populares urbanos, especialmente às favelas, mas que os transbordam para doar ao Rio de Janeiro a legenda de cidade maravilhosa.

Embora reúna signos marcadores da cultura carioca, as favelas são ainda consideradas como territórios carentes, miseráveis e violentos. Tais expressões são redutoras da vida social das favelas e, de modo mais incisivo, do não reconhecimento da pluralidade cultural destes territórios populares e da criminalização de práticas artísticas como os bailes funks e as rodas de hip hop.

Apesar dos estereótipos da pobreza e dos estigmas da violência que ainda marcam as favelas e seus moradores, não é possível desconsiderar a riqueza de suas expressões estéticas e modos significativos de apresentar (e afirmar) a sua pluralidade cultural. Embora não sejam marcadas por uma elaboração nos padrões dominantes de cultura, a constelação cultural elaborada nas favelas gera produções estéticas individuais e coletivas que permitem a construção de pertencimentos em complexas redes de sociabilidade urbana.

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De imediato não identificamos objetos e equipamentos marcadores da produção e fruição cultural hegemônica na paisagem das favelas, a exemplo dos museus, teatros, cinemas, galerias de arte e centros de exposição. Entretanto, é inegável que favelas constituem patrimônios materiais e imateriais que, embora não consagrados e/ou reconhecidos mais amplamente, são representativos de práticas que inventam, integram e renovam experiências culturais urbanas. O samba e a capoeira combinaram a dança e a música na gestualidade estética carioca. O funk e o hip-hop atualizaram a paisagem sonora da cidade, apesar da retórica criminalizante que os perseguem. A recente produção no campo das artes visuais − grafite, fotografia e vídeo − inventa representações inovadoras do território e retraduzem pertencimentos das favelas ao espaço urbano metropolitano. Por isso, podemos afirmar que a favela é um território de (re)invenções, de (re)apropriações e (re)traduções da cultura popular urbana.

Entra na cena urbana um conjunto de sujeitos e práticas criativas em suas cores grafitadas, suas sonoridades multiplicadas, seus bailados de corporeidades e suas memórias figuradas em cenas de identidades em movimento. Ou seja, a construção contínua de relações de intersubjetividade que inventam possibilidades de outras formas e conteúdos para construção de referências de sociabilidade na cidade.

CATÁLOGO VÍVIDO DE MÚLTIPLAS LINGUAGENS

É assim que a polifonia ganha espacialidades em bares, biroscas, restaurantes, clubes e salões, para se tornarem cenas de samba, forró, rock, hip hop, charme e funk. É desse jeito que as lajes se tornam coberturas para os sabores da feijoada na roda de samba ou, então, tablados para encenação de peças teatrais, saraus de poesia e exibição de filmes. De um lado da calçada, os salões de beleza esculpem penteados afro-brasileiros para afirmação de pertencimentos socioculturais da juventude negra. E, de outro, graffitis são multiplicados em cada esquina como polissemias estéticas desafiadoras. Há, portanto, um catálogo vívido de múltiplas linguagens, estilos, tradições e inovações nas favelas, exprimindo a sua riqueza cultural particular e a riqueza cultural da própria cidade.

É neste campo de potência que jovens se reúnem para fazer da cultura um ato político, uma vez que sua inventividade é uma rebeldia diante da invisibilidade social e corpórea que lhes é imposta na cidade. A postura criativa dos jovens das favelas não é um ato circunstancial ou uma curiosidade errante, mas um modo de construir narrativas de si e de se apresentarem como sujeito de direitos em uma sociedade de desiguais.

Os diferentes repertórios criados nas favelas se entrelaçam em espaços de fruição notadamente coletivos e comuns. São os espaços de sociabilidade − praças, ruas, campos de futebol, quadras esportivas, bares, salões de festas de igrejas, escolas e lan houses − que aparecem como o principal recurso para a invenção e compartilhamento de experiências artísticas nos territórios populares. São cenas de convivência para o abrigo das diferenças e mediação de conflitos entre indivíduos e coletivos. Trata-se da apropriação e do uso do espaço público como condição de visibilidade dos jovens e do conjunto de moradores das favelas.

Os meios e as técnicas de comunicação são também incorporados à produção estética dos territórios populares. É assim que os repertórios criados na favela ganham reverberação em programas de televisão e de rádio para ganhar escalas geográficas mais amplas de difusão. Isto tem tudo a ver como os milhares de cd`s gravados e comercializados, com as centenas de registros fotográficos e em vídeo disparados pela internet e com os bailes funk e rodas culturais de hip hop que mobilizam diferentes galeras. Há uma cultura de massas em ascensão nas favelas que, inclusive, transborda suas fronteiras para anunciar alegrias, recusas, paixões e protestos no conjunto da cidade.

Tais anunciações são, na sua complexa composição, estéticas de atitude que se revelam como referências fundamentais para as disputas de imaginário sobre o sentido da cultura e do significado da favela na própria cidade.

Apesar das limitações enfrentadas, os indivíduos e os grupos de territórios populares inventam estilos, signos e objetos estéticos em enlaces culturais de pertencimento social e político. E, considerando o Rio de Janeiro como uma cidade onde a cultura popular possui um papel de imensa relevância na sua imaginária urbana, a produção e a fruição estética das favelas demonstram um campo disputas pelo significado dos rumos da cultura entrelaçados com os da própria cidade no contemporâneo.

Jorge Luiz Barbosa é  coordenador do Observatório das Favelas e professor da UFF

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