O escalpelamento dos ribeirinhos na Amazônia

Desconhecido no país, o acidente já provocou a morte de duas crianças nos últimos seis anos

Espaço Acolher, em Belém, atende as vítimas de escalpelamento em tratamento / Foto: Thiago Araújo (Ag. Pará)

Por Pilar Magnavita

Quem passa pela pequena casa na esquina da Alcindo Cacela com a Diogo Móia no bairro de Umarizal, na capital paraense, faz pouca ideia que aqueles paredes singelas que levam o letreiro “Espaço Acolher” abrigam inúmeras histórias de vidas que superaram o trauma de um escalpelamento. Longe de ser uma narrativa de índios e cowboys, esse tipo de violência existe em decorrência de acidentes com motores de barcos utilizados pela maioria das populações ribeirinhas da Amazônia. Com o eixo descoberto, os fios de cabelo podem se enroscar no metal em rotação que fica no centro da embarcação, arrancando o couro cabeludo dos tripulantes e oferecendo risco de morte.

 

Nos últimos seis anos, duas crianças morreram no Estado do Pará, uma delas decapitada e a outra afogada, das 66 vítimas registradas pela Comissão Estadual de Enfrentamento aos Acidentes de Motor com Escalpelamento, em grande parte no arquipélago de Marajó. O restante, formado majoritariamente por meninas, 65% delas ainda crianças, sobrevive resgatando a autoestima abalada pelas sequelas do acidente. Nos últimos 40 anos, o total beira 500 casos. A boa notícia é que a estatística vem melhorando: de 11 casos, em 2015, caiu para apenas seis, ano passado.

 

É um tipo de acidente cruel demais, que deixa muita sequela e que não deveria mais existir”

Socorro Ruivo, enfermeira-chefe da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará

 

O Espaço, mantido há uma década pela Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará, abriga atualmente cerca de 30 pacientes em tratamento no hospital por escalpelamento. Tem capacidade para atender até 150 casos.

– É um tipo de acidente cruel demais, que deixa muita sequela e que não deveria mais existir – observa Socorro Ruivo, enfermeira-chefe da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará.

A enfermeira, que trabalha há 30 anos na Santa Casa, explica que, apesar de o atendimento hospitalar ter evoluído com novas tecnologias de curativos e cirúrgicas, o escalpelamento ainda é capaz de provocar na vítima problemas de visão, audição, além de uma cefaleia crônica, controlada ao longo da vida com medicamentos.

Um número alto de pessoas chega ao hospital sem as orelhas. A frequência nesse tipo de atendimento fez com que a Santa Casa do Pará iniciasse neste ano cirurgias de transplante auricular, entrando para um rol seleto de instituições com essa especialidade na América Latina. A primeira deve acontecer daqui a seis meses, quando a primeira prótese de silicone para uma das pacientes, deverá ficar pronta. A tecnologia permite que o molde seja do mesmo tom de pele da vítima.

Em outros casos, a visão é afetada. A violência do acidente faz com que metade das vítimas perca parte dos tecidos da face. A pele e a musculatura acabam repuxadas no local afetado, atrapalhando a visão.

 

Eu tive muito medo de sofrer preconceito”

Natália Mendes Furtado, vítima de escalpelamento

 

É o que conta Natália Mendes Furtado, uma jovem de 18 anos, que perdeu toda a musculatura do olho direito, restando apenas 10% do esquerdo. A estudante, moradora de Porto de Moz, município da região de Marajó no Pará, explica que está no Espaço Acolher aguardando a sexta cirurgia para a reconstrução do couro cabeludo, afetado pelo acidente há cinco anos, quando ia da escola para casa. Quando perguntada se esta é a última cirurgia, Natália responde transparecendo tristeza no olhar:

– Os médicos não sabem dizer.

Ainda assim, Natália parece não ter se deixado cair na depressão. Usando uma peruca de tom escuro e batom na cor nude, a jovem, de uma beleza amazônica, conta que está finalizando o Ensino Médio na cidade onde nasceu e onde aprendeu a viver após o acidente. Quer ser psicóloga.

– Eu tive muito medo de sofrer preconceito, mas nunca passei por isso. Quando cheguei aqui (no Espaço Acolher) as meninas pegaram e me abraçaram. Me acolheram mesmo. Aqui é minha segunda casa – conta.

Barcos “popopó” no centro da foto: mais à esquerda, a embarcação com o eixo desprotegido e outra, mais à direita, com cobertura laranja. Foto: Divulgação

Com Áuria Oliveira Vieira, de 40 anos, foi diferente. Hoje casada e mãe de três filhos, um deles por adoção, a pedagoga revela que sofreu o acidente aos 11 anos na embarcação da família em Itaituba, na região do Marajó no Pará, e que a mãe a tirou da escola com medo de a menina sofrer com o preconceito dos colegas.

– Só voltei a estudar em 2006. Completei o primário, depois fiz o ensino médio. Em 2014, entrei para a faculdade de Pedagogia – relembra Áuria.

Ela conta que sofreu o escalpelamento para tirar alguns peixes que haviam pulado para dentro do barco. Hoje Áuria está hospedada no Espaço Acolher para realizar um tratamento pelo SUS na Santa Casa do Pará. Após décadas da primeira cirurgia, em 1989, quando fez os primeiros enxertos de carne e pele, ela explica que o couro cabeludo voltou a apresentar feridas pelo uso contínuo de peruca de má qualidade, na avaliação dela. Com nova peruca e sob medicação, Áuria explica que não teve mais ferimentos.

 

CONHECER PARA PREVENIR

Aos 11 anos, Rosely da Silva Barros sofreu escalpelamento sem nunca ter ouvido falar que esse tipo de acidente era possível. Na embarcação que servia de transporte escolar, pilotada naquele dia pela própria mãe, a menina brincava com outra criança de um jogo chamado Bole-Bole ou Cinco Marias, que consiste em jogar cinco pedras para o alto e pegar todas de uma vez. Uma das peças caiu perto do motor. Rosely levantou a proteção do eixo para buscar a pedra e teve os cabelos enrolados no motor. Parte do couro cabeludo e uma orelha foram arrancados.

– Ela desmaiou. Peguei um facão e cortei, bem em cima do eixo, o couro enrolado. A cabeça dela parecia um coco descascado – relatou Marinete da Silva Barros, mãe de Rosely.

Da esquerda para direita: Marinete Barros, a assistente social e coordenadora do Espaço Acolher, Luzia Mattos, Rosely Barros, Áuria Vieira, Natália Furtado. / Foto: Divulgação

A viagem até o hospital em Altamira levou cerca de cinco horas de barco. Rosely passou seis dias na UTI e foi transferida para a Santa Casa. Foram realizados enxertos de pele e músculos, em três cirurgias, ao longo de um ano. Sete anos depois, Rosely aguarda a oportunidade de colocar um expansor, uma bolsa de silicone inserida debaixo da pele para esticar o tecido saudável e reduzir a cicatriz no lado afetado.

A enfermeira-chefe da Santa Casa, Socorro Ruivo, explica que o enxpansor é uma evolução no tratamento às vítimas de escalpelamento, assim como os curativos. O primeiro atendimento é fundamental para haver uma recuperação rápida. Recomenda-se proteger a cabeça com panos limpos, não colocar nenhum remédio no local e correr para o hospital mais próximo. Na Santa Casa, o tratamento é feito até o tecido voltar a cobrir a área afetada. A recuperação é longa e muitas pacientes desistem de buscar a reconstrução de partes afetadas, tanto pela dificuldade familiar de abandonar a vida na própria cidade para residir temporariamente em Belém, quanto pelo desejo de seguir com a vida sem relembrar o acidente.

 

SEQUELAS

A peruca é o principal instrumento da auto-estima e aceitação social das vítimas de escalpelamento, como explica Socorro Silva, coordenadora do programa de prevenção ao acidente, da Secretaria Estadual de Saúde Pública do Pará. Muitas das jovens do Espaço Acolher optaram por utilizar perucas longas e de diversas tonalidades, para esconder as lesões auriculares e oculares. Socorro acrescenta que as políticas públicas são fundamentais para o atendimento às vítimas, na maioria, jovens de comunidades ribeirinhas. Isso inclui atendimento de psicólogos, assistentes sociais e professores da rede de ensino fundamental e médio. Tal como Natália Mendes Furtado, que completou o Fundamental na casa de apoio, muitas tem a possibilidade de continuar estudando e realizar atividades extracurriculares como oficinas de arte.

As sequelas do escalpelamento são extensivas aos familiares, na avaliação da coordenadora que faz parte da Comissão Estadual de Erradicação dos Acidentes com Escalpelamento. Ela explica que alguns acidentes são capazes de desfazer núcleos familiares e até mesmo podem ocasionar o abandono emocional da vítima, menor de idade. Um dos casos que testemunhou foi a de uma jovem que viu o pai se afastar e a mãe se tornar alcoólatra após o acidente.

A coordenadora estadual da Comissão, Socorro Silva, reforça o trabalho de prevenção entre os ribeirinhos. / Foto: Thiago Gomes (Ag. Pará)

– Em outros, a mãe passa muito tempo com a criança em Belém e acaba deixando os filhos aos cuidados do pai, que às vezes desfaz o casamento – aponta a coordenadora.

Por isso o trabalho da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) e da Secretaria de de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (Seaster) tem se voltado para a prevenção do acidente. Socorro, que está a frente das campanhas com comunidades ribeiras, explica que as campanhas no rádio e TV, com a atriz Dira Paes, sensibilizaram a população que utiliza barcos com motor de eixo. No entanto, ela salienta que muitas embarcações ainda precisam usar uma proteção de ferro sobre o motor, fornecida gratuitamente pela Marinha. Os passageiros são orientados a usar algum tipo de proteção ao cabelo, seja pelo uso de um chapéu, seja pelo uso de um coque.

Na opinião de Socorro, o trabalho de prevenção com barqueiras, famílias ribeirinhas e em escolas de ensino médio e fundamental tem sido importante para reduzir as estatísticas de escalpelamento, que era de 11 casos em 2015 e caiu para apenas seis, ano passado. Quatro deles ocorreram no Arquipélago do Marajó nos municípios de Melgaço, Gurupá, Chaves e Anajás e dois na região do Tocantins nos municípios de Limoeiro do Ajurú e Mocajuba.

Para reduzir e erradicar o número de casos, um plano de ação foi definido pelas entidades que fazem parte da Comissão Estadual de Enfrentamento dos Acidentes com Escalpelamento.

A Política de Enfrentamento aos Acidentes de Motor com Escalpelamento do Governo do Pará foi criada para garantir o direito às vítimas e promover uma rede de serviços assistenciais para promover a conscientização pública por meio de campanhas, mobilizar a sociedade civil, realizar acordo com gestores municipais, ampliar a cobertura do eixo e fiscalizar as embarcações em parceria com a Capitania dos Portos.

Para a conscientização, o folheto da campanha de prevenção ao escalpelamento traz a história de Sirlene Nascimento, de 27 anos. Aos 11, ela teve o couro cabeludo e as duas orelhas arrancados. Passou por mais de 20 cirurgias, incluindo a reconstrução das sobrancelhas. Ao longo da recuperação, Sirlene revela que sofreu preconceito e dificuldades profissionais.

Folheto da campanha de prevenção ao escalpelamento traz a história de Sirlene Nascimento, de 27 anos. / Foto: Thiago Gomes (Ag. Pará)

Socorro Silva, que também é a coordenadora estadual da Comissão, destaca que durante o primeiro período crítico do ano – o feriadão de carnaval – não foi computado nenhum acidente em 2017.

– Nesta época há uma grande circulação de embarcações nos rios paraenses. Somente no ano passado, por exemplo, neste mesmo período foi registrado um caso.

Outra época do ano que registra acidentes é o Círio de Nazaré em outubro, quando as populações ribeirinhas navegam em romaria pelos rios do Pará.

 

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