No meu quintal tem uma indústria

Uma cidade ganhou ares de município grande após a instalação de fábricas, mas quem vive lá não tem tanto a comemorar

Praia da Vila do Conde, em Barcarena, com a estrutura de escoamento de grãos ao fundo / Foto: Custodio Coimbra


Por Renan França

Quando criado, o polo industrial de Barcarena, no Pará, era uma promessa de progresso para a região, que atrairia empresas de vários setores para o distrito industrial criado a sua volta. Quatro décadas se passaram e o plano para atrair empresas deu certo. Hoje, mais de 90 companhias estão na região, como as gigantes Alubar e Albras, o que fez aumentar a oferta de emprego local, ao mesmo tempo que trouxe à reboque alguns problemas. De cidadezinha pacata, a Barcarena do século XXI ganhou ares de município grande, com intenso crescimento populacional em meio a chegada de indústrias.  Mas, afinal, o que significa morar na região e ser vizinho de um polo industrial?

– Normalmente dizem cidade rica tem indústrias. Por isso, eu diria que morar em Barcarena é bom porque estaríamos preparados para o desenvolvimento. Mas é preciso haver um ajuste nesta relação porque a cidade se desenvolveu, mas a vida econômica dos moradores não acompanhou essa melhora. Fomos esquecidos. As empresas enriqueceram, mas a vida dos barcarenenses não progrediu tanto – afirma a líder comunitária Quézia Caetano.

Nesse desenrolar cheio de controvérsias, há moradores que veem o lado positivo de morar cercado por indústrias. É o caso do empreendedor Ademir Souza que montou um restaurante em frente à multinacional francesa Imerys Caulin no bairro Industrial. Ele conta que graças à uma parceria com a empresa firmada há um ano, na qual fornece almoço para 120 operários diariamente, ele conseguiu expandir seus negócios em Barcarena e já pensa em abrir até mais restaurantes.

– Eu já tentei ter mercearia em Barcarena, mas não deu certo. Pela primeira vez, tenho um negócio de sucesso. Não posso reclamar, mas sei que histórias como a minha  não são tão comuns. É difícil encontrar alguém que conseguiu aproveitar uma empresa aqui para progredir. Até porque não há tantas oportunidades assim – afirma Ademir.

De fato, é difícil mesmo. Além do aspecto econômico, multiplicam-se pelas ruas esburacadas de Barcarena histórias de moradores que reclamam da infraestrutura de serviços públicos. Com a população em crescimento, haveria necessidade, por exemplo, de uma maior rede de atendimento médico. No distrito onde ficam grande parte das empresas faltam profissionais nos dois postos de saúde e remédios para a população.

Pela primeira vez, tenho um negócio de sucesso. Não posso reclamar, mas sei que histórias como a minha  não são tão comuns. É difícil encontrar alguém que conseguiu aproveitar uma empresa aqui para progredir. Até porque não há tantas oportunidades assim”.

Ademir Souza, empresário

Ironicamente, um dos locais mais esquecidos, em termos de infraestrutura, segundos os moradores, é a Vila do Conde, local onde foi construído o porto homônimo ao bairro – considerado um dos mais importantes do estado. Por ele são exportados mais de 400 mil toneladas por ano de bauxita e 5,8 milhões de toneladas por ano de alumina, sendo também a principal via de escoamento de gado do Pará.

– Barcarena é importante estrategicamente não só para o Pará como para o Brasil. Por isso mesmo, um lugar projetado para ampliar a exploração dos recursos minerais da Amazônia, não poderia ter ruas e estradas tão ruins, iluminação pública precária, insegurança. É como se os impostos que ficassem retidos aqui não valessem para compensar todo o passivo de estarmos rodeados por indústrias – diz a pedagoga Ronsângela Xavier.

FRUSTRAÇÃO COM OS GRANDES EMPREENDIMENTOS

De acordo com Hubmaier Bernardes de Andrade, professor de gestão ambiental da FGV, a forma como são instalados os grandes empreendimentos pode provocar mudanças de impacto na vida de quem vive próximo, por exemplo, às indústrias:

– Todo investimento, principalmente de indústrias, é uma oportunidade para quem mora próximo. A frustração, no entanto, é que a comunidade nem sempre é informada o suficiente sobre os impactos demográficos e possíveis gargalos em serviços público. Cria-se um vácuo entre a expectativa e o que é entregue – afirma o professor.

A oferta de emprego é um exemplo. Barcarena tem convivido com o aumento da população que vem ao Pará com a expectativa de conseguir trabalho – em 1991, a cidade tinha 45 mil moradores, em 2010, havia cerca de 100 mil habitantes, de acordo com o IBGE. Apesar da oferta de vagas, grande parte dos candidatos não possuem as qualificações necessárias e não são absorvidos pelo mercado de trabalho.

– Gostaríamos de contar com mais trabalhadores locais e do Pará, mas muitas vagas não são preenchidas porque os candidatos estão aquém das nossas necessidades. Às vezes, temos que contratar pessoas de fora – diz Ana Carolina Santos, gerente de pessoas da Alubar, empresa que produz cabos de alta tensão. – Apesar de alguns problemas, as empresas são importantes para a cidade, tanto é que Barcarena é o quarto município que mais arrecada. A Alubar cumpre as obrigações, mas não dá para as empresas resolverem tudo.  

As companhias são importantes economicamente, mas também contribuíram para desarranjos ambientais. Desde o ano 2000, já são sete os acidentes ambientais envolvendo a indústria mineradora na região. Entre os mais relevantes, estão o derramamento de substâncias químicas como coque e soda cáustica no Rio Pará e a chuva de fuligem na Vila de Conde. Além desses, em 2015, um navio carregado com quase cinco mil bois vivos, naufragou no cais do porto de Vila do Conde com 730 mil litros de combustível nos tanques e toda a carga animal presa aos porões. Até hoje as autoridades não conseguiram retirar todo combustível e nem as carcaças de animais, que já vazaram no Rio Pará, se expandindo por cidades e ilhas próximas.

O Ministério Público Federal (MPF) vem acompanhando os casos e diz que é preocupante o que ocorre em Barcarena. Para tentar mitigar os efeitos, no final do ano passado foi assinado um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) entre o MPF, Ministério Público Estadual e o Pará que exige o monitoramento dos impactos socioambientais em Barcarena

– Quem mora há anos em Barcarena dificilmente não teve a saúde afetada pela poluição das empresas, além de prejuízos nas atividades como o cultivo de alimentos e a pesca. Por isso, firmamos um acordo para exigir um monitoramento desse impacto para tomar providências – afirma o procurador federal Bruno Valente. – Hoje é feito um monitoramento por parte das companhias, mas quem fica encarregado dessa produção são as próprias empresas. Vamos exigir um levantamento de uma instituição autônoma.

Apesar das ações, o próprio procurador afirma que esse é um passo tímido, diante da complexidade do problema.

-Em Barcarena, o grande problema é que as indústrias ocuparam o território antes da lei de licenciamento ser criada, em 1997. Ou seja, as empresas possuem licenças para operarem, mas não há um licenciamento do distrito industrial, o que provoca uma série de problemas. Apesar disso, o Estado do Pará e as indústrias que estão lá estão não podem ser eximidas desculpa. Vamos exigir o licenciamento total da área porque a vida de quem mora lá precisa melhorar.

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