O racismo como a base estrutural da desigualdade brasileira

Pintura de uma série de quadros que o francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) fez no Brasil, retratando, na época, a nação mestiça que se formava nos trópicos / Foto: Wikicomons

Por Jailson de Souza e Silva

Não quero falar nesse artigo do genocídio atualmente perpetrado contra os negros brasileiros. Isso é por demais sabido. E naturalizado. Quero destacar que essa barbárie é a expressão mais radical do racismo que estrutura a desigualdade brasileira e se dissemina por todas as formas sociais brasileiras.

“Você adora me diminuir, adora me ofender, gosta de me humilhar! Não tenho nada contra negro, mas eles são feios, eu não sou feia!” Essas são algumas das expressões usadas por minha mãe quando digo que ela é negra, eu sou negro e devemos nos orgulhar disso. Empregada doméstica, mãe solteira no nordeste dos anos 20, negra cafusa, minha avó, por sua vez, vivia recomendando ao meu irmão – seu neto predileto por ser o mais “branco” da família – que “nunca se casasse com uma preta, pois elas não valem nada”. Talvez não por acaso, foi o que ele fez e com sua esposa teve três lindo filhos, todos negros.

“Onde você guarda seu racismo?” Esse foi o mote de uma campanha feita por organizações do movimento negro no início dos anos 2.000, depois reeditada. Sua perspectiva era/é demonstrar que o racismo faz parte da estrutura social e das subjetividades brasileiras, sendo naturalizado e considerado “normal” por um imenso número de pessoas.

O racismo gera o processo de “monstrualização” do traficante de drogas no varejo e explica que essa tenha sido a principal atividade ilegal a ser combatida pelo forças de segurança. Por que, dentre tantas, inclusive outras que afetam muito mais a vida da população – como o tráfico de armas ou a corrupção – é justamente essa atividade ilícita, não criminosa, que passou a ser considerado crime hediondo? Quando monstrualizamos, arrancamos o outro de sua humanidade e queremos expulsá-lo de nosso convívio. Essa prática é a premissa que sustenta a banalização da morte de uma parcela especifica da população. O tráfico de drogas no varejo foi monstrualizado e se tornou uma atividade tão combatida, no âmbito brasileiro especialmente, em função do racismo.

Cenas de jovens negros armados fugindo, há alguns anos, de favelas ocupadas por forças de segurança no Rio de Janeiro foram mostradas com furor cívico e regozijo nos grandes jornais e emissoras de televisão. Isso se explica devido ao temor que ainda acomete nossas classes dominantes em relação à população negra e sua necessidade de mantê-la controlada, mesmo com prisões e assassinatos em massa.

POR QUANTOS MÉDICOS NEGROS VOCÊ JÁ FOI ATENDIDO?

O fato de pessoas como minha mãe e minha avó serem racistas faz com que muitas outras achem que não há muito o que fazer para enfrentar o preconceito; afinal, ele é afirmado inclusive por pessoas negras. Nesse sentido, caberia esperar que, com o tempo, essa “mancha” vá se diluindo na sociedade brasileira. Grave equívoco. O racismo não é uma anomalia na nossa realidade nacional, não é algo disfuncional, que pode ser superado com avanços institucionais. Ele é o elemento estruturante das nossas relações sociais, econômicas, culturais e educacionais. As estruturas familiares, estatais, do mercado e mesmo de muitas organizações da sociedade civil funcionam a partir da naturalização da dominação branca nelas. Em nome de uma pretensa meritocracia, os negros não tiveram/não têm espaço nas universidades, no poder judiciário, nos postos diplomáticos, nas gerências de empresas etc.

Por quantos médicos negros você já foi atendido? Com quantos pilotos de avião negros você já voou? Quantos gerentes de bancos negros já te atenderam? No início dos anos 2.000, dividindo uma mesa com Pedro Moreira Salles, perguntei a ele por que, sendo a população de pretos e pardos de quase 50% do universo populacional carioca, apenas 13% dos bancários eram negros. Não estou dizendo banqueiros, mas empregados daquelas instituições. Não tive resposta. Da mesma forma, a recente aprovação de políticas de ações afirmativas para a população negra na USP – última universidade pública de São Paulo a assumir essa iniciativa – provoca muitas reações furiosas, considerando que isso pode minar a excelência da instituição. Essas pessoas não conseguem perceber o óbvio: a pretensa excelência acadêmica de uma universidade pública deve ser exigida em sua porta de saída e não na porta de entrada. Apenas a presença de negros na vida cotidiana das instituições é que poderá permitir que a desigualdade estrutural racista seja enfrentada de forma abrangente no Brasil.

Diante da realidade que vivemos, os setores comprometidos com a democracia no Brasil precisam entender que a superação da desigualdade, em todas as suas dimensões, não irá ocorrer se a questão do racismo não for colocada como seu elemento estruturante. Nesse caso, mesmo os partidos considerados comprometidos com a luta contra a desigualdade ainda a afirmam a partir da categoria genérica de defesa dos trabalhadores e dos mais pobres.

Todavia, a democracia brasileira só terá condições de ser assegurada quando a estrutura racista institucional for enfrentada e superada em todas as suas dimensões, quando conseguirmos afirmar sua superação nas estruturas institucionais nas quais vivemos. Para isso, não podemos deixar de (nos) perguntar, em nossa relação com as diversas pessoas e instituições nas quais vivemos o nosso cotidiano: “Onde você guarda o seu racismo?”. Nesse processo, na percepção e enunciação de como o racismo se apresenta em nossas institucionalidades, iremos criando as condições devidas para superá-lo.

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