Os desafios de quem enfrenta o machismo todo dia

A estudante Bianca Mota, de 22 anos, conta que desde pequena teve que lidar com a imposição de hábitos associados ao gênero feminino. Mais tarde, quando entrou na Faculdade de Engenharia da UFRJ, foi a vez de encarar um ambiente predominantemente masculino. A amiga de faculdade Natalia da Costa, também estudante de Engenharia, é outra que rechaça a visão subalterna da mulher, e ainda revela que sua entrada na universidade através da política de cotas foi uma vitória pessoal. A seguir, o ponto de vista das duas sobre o desafio de combater o machismo diariamente. 

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Por Bianca Mota, 22 anos, estudante

Se me perguntassem quando eu criei a percepção da desigualdade que existe entre gêneros na sociedade, eu não saberia responder. Apesar de estar sempre presente na minha vida, quando pequena eu não compreendia por qual motivo as pessoas esperavam comportamentos diferentes de homens e mulheres, tampouco entendia que estava sendo condicionada a reproduzir essas atitudes. Agora, com 22 anos, ainda faço um esforço consciente para desconstruir o machismo que, de alguma maneira, é enraizado em todos nós, não apenas nos homens, quer percebamos ou não.

Uma das lembranças que mais se destacou como meu primeiro contato com os papéis sociais de gênero foi de quando eu era criança e desejava com todas as forças ganhar um carrinho Hot Wheels. Meu dilema era: como consegui-lo se eu tinha vergonha demais para pedir aos meus pais de presente? Afinal, aquele era um “brinquedo de menino”. Seria errado da minha parte dar preferência a ele e não às bonecas. Então inventei uma história inteira na minha cabeça, na qual eu iria até uma loja, compraria o brinquedo e me justificaria para o atendente falando que era para um primo. Obviamente, essa fantasia não se concretizou e eu passei a minha infância sem ganhar o cobiçado carrinho.

Esse é um exemplo pequeno frente a tantos outros, mas é uma situação muito real que acontece com garotas todos os dias. Representa um problema maior, a imposição de hábitos associados ao feminino e ao masculino que, às vezes, impede o indivíduo de fazer o que realmente quer por medo de julgamento. Por exemplo, há um histórico que põe o homem como o provedor da família, aquele que fica o dia trabalhando fora de casa e, por isso, é capaz de sustentar financeiramente o lar; enquanto isso, a mulher é encarregada de cuidar dos afazeres domésticos e dos filhos (porque era esperado que todas quisessem ser mães, já que essa era vista como a principal função feminina).

Uma das lembranças que mais se destacou como meu primeiro contato com os papéis sociais de gênero foi de quando eu era criança e desejava com todas as forças ganhar um carrinho Hot Wheels. Meu dilema era: como consegui-lo se eu tinha vergonha demais para pedir aos meus pais de presente? Afinal, aquele era um ‘brinquedo de menino'”

Bianca Mota

Felizmente, nos últimos anos, esses estereótipos se tornam cada vez menos comuns. Na minha família, eu sempre tive minha mãe como modelo de mulher que consegue conciliar muito bem sua vida profissional e pessoal, então cresci acreditando que poderia alcançar o que quisesse na vida. Logo, ao tomar a decisão de prestar vestibular para Engenharia, não hesitei em momento algum por achar ser um ambiente predominantemente masculino. Na verdade, não cheguei a pensar nisso até entrar de fato na universidade e ouvir comentários como: “Nossa, na sua turma tem muitas meninas”, pois compomos cerca de metade dos estudantes do meu curso. Engenharia de Produção difere das outras nessa questão, a divisão de gêneros é mais igualitária do que esperado; é possível ver o contraste andando pelos corredores da faculdade e observando que os homens ainda constituem uma parte majoritária do corpo discente da Escola de Engenharia.

Dentro da faculdade, ouvimos relatos de alunas que já se sentiram diminuídas em situações acadêmicas por conta do seu gênero apenas. Não é atípico ouvirmos comentários machistas de colegas e até mesmo professores, que são descartados como piadas e as mulheres tachadas de exageradas por ficarem ofendidas com eles. Mesmo não tendo ingressado totalmente no mercado de trabalho ainda, eu já receio uma possível dificuldade em me impor como profissional. Sinto que as mulheres têm que provar e reafirmar continuamente que merecem o respeito que é concedido instantaneamente aos homens só por serem homens; a competência de uma pessoa não deve ser deduzida de cara como consequência de preconceitos estabelecidos há anos.

Além disso, outro ponto importante que afeta a vida das mulheres é a sua frequente sexualização. A visão da mulher como um objeto sexual não só colabora com atitudes machistas como assédio, abuso e violência, como também justifica tais atos. Enquanto o maior medo masculino ao andar sozinho e indefeso na rua é de talvez ser assaltado, para mulheres esse seria o menor dos males. Fomos obrigadas a desenvolver a capacidade de observar tudo o que ocorre ao nosso redor e identificar situações de potencial perigo, ensinadas a sermos precavidas, em vez de orientarem os homens a nos respeitarem mais. Mulheres se sentem mais confortáveis e seguras na presença de outras mulheres, porque entendemos pelo que cada uma passa diariamente e queremos dar o apoio que gostaríamos de receber também.

Conversando com amigas, é fácil listar hábitos em comum que nos fazem sentir mais seguras e que, provavelmente, nem passam pela cabeça de um homem: no ônibus, algumas dão preferência a sentar na cadeira do corredor para não ficarem presas contra a parede se algum estranho tentar se aproveitar ou forçar algo; em festas, quando são abordadas por um cara insistente, é normal inventarem que têm namorado porque é mais provável um homem respeitá-las por achar que elas são “propriedade” de outro do que simplesmente aceitar a rejeição; ao sair de casa, é necessário pensar por onde vão passar, em que momento do dia ou se estarão sozinhas ou não, para decidir que roupa usar, já que muitos consideram a vestimenta um indicativo do interesse da mulher; dentre inúmeros outros exemplos.

Por esses motivos e muitos outros que o feminismo é importante na vida de tantas mulheres. Não queremos privilégios ou tratamentos especiais, apenas exigimos respeito e direitos iguais entre todas as pessoas, independente do gênero, e liberdade para vivermos sem medo e sem julgamentos.”.

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Por Natalia da Costa, 23 anos, estudante

Sempre fui amante de esportes, seja para praticar, assistir ou torcer. Quando criança, não era comum que as meninas praticassem esportes, principalmente futebol, então sempre sofria com coisas do tipo “isso é coisa de menino”. O pior dessa experiência é que as próprias crianças reproduziam esse preconceito, o que remete à importância de mostrar tolerância e aceitação dentro da educação infantil, como parte fundamental do desenvolvimento de um indivíduo. Uma criança que sofre preconceito, vindo da própria família ou de outras crianças, pode desenvolver diversos problemas e tornar-se um adulto que também propaga mais preconceito. Quando se é criança, existe essa separação entre “coisas de menina” e “coisas de menino”, o que limita muito o desenvolvimento. As crianças por si só não fazem esse tipo distinção, elas apenas escolhem o que acham mais divertido. A sociedade que impõe o papel de cada um. Existe muita estigmatização na educação das crianças. 

Desde criança, constrói-se essa visão da mulher como dona de casa e do homem como provedor, que faz as coisas acontecerem. Essa visão é muito presente ainda hoje. No bairro em que fui criada, por exemplo, que é, no geral, um bairro simples com pessoas simples, essa visão de que a menina deve ficar em casa e cuidar da família ainda prevalece, mesmo as mulheres que saem para trabalhar fora continuam sendo as responsáveis (na maioria das vezes, sozinhas) pelo lar, o que é um grande acúmulo de funções também. Existe ainda a visão da necessidade de uma figura masculina de autoridade, de um homem na família, mas meu maior exemplo de que uma mulher é autossuficiente e capaz de cuidar de tudo sozinha, trabalhar fora e cuidar da família sem precisar do auxílio de qualquer homem, é minha mãe, que sempre lutou muito sem auxílio para oferecer o melhor que pode para mim e meu irmão.

Partindo da criação e educação infantil, pelos padrões sociais, vemos como o machismo já está muito enraizado na sociedade. O que fica claro também em tantos outros casos em que as mulheres são diminuídas ou ignoradas, sempre tendo “que se provar” aos olhos dos homens.

Um dos principais pontos de debate sobre a vida das mulheres é a violência e o assédio. Mulheres sofrem todos os dias com as mais diversas formas de violência, seja física, moral ou psicológica. São inúmeros os casos de violência doméstica, sem contar os tantos que não são relatados, devido ao medo que as mulheres têm de seus próprios parceiros. A sociedade tende a diminuir a importância de se combater esse tipo de violência, pois ainda existe aquela ideia do homem superior que controla a mulher e de que terceiros não podem se envolver para ajudar.

A mulher tem constantemente seu papel diminuído e lhe falta controle e poder de decisão. Toda mulher tem o direito sobre seu corpo e sobre sua vida, e esse é o ponto fundamental do feminismo, que está relacionado com o machismo que as meninas enfrentam quando crianças, com os assédios vividos no dia-a-dia , com os casos de violência, com a falta de aceitação, também com as questões de gênero e sexualidade.

Muito se diz contra o feminismo, que feministas são a favor do aborto, são contra o casamento e a família etc., mas, na realidade, a base do feminismo é de que a mulher pode ser o que ela quiser e fazer o que ela quiser. O feminismo mostra que tudo bem se a mulher quiser ser dona de casa ou não, se quiser casar ou não, ter filhos ou não; o feminismo luta pelo direito de escolha da mulher, para que não seja julgada por suas decisões.

Voltando a falar um pouco da minha experiência, quando escolhi Engenharia tive um leve receio sobre como seria o ambiente, que é predominantemente masculino. É terrível pensar que você pode sofrer algum tipo de preconceito ou violência apenas com base no que se diz sobre determinado meio, como o ambiente acadêmico ou de trabalho – mas, se pensar que mulheres têm medo de sair de casa todos os dias devido à violência nas ruas, esse não é o maior dos males, e pode ser mais facilmente modificado. Eu não sofri até hoje preconceito na faculdade por ser mulher, mas soube de relatos de outras mulheres que sofreram de alguma maneira com o machismo.

A base do feminismo é de que a mulher pode ser o que ela quiser e fazer o que ela quiser”

Natalia da Costa

Entrei na universidade através de ação afirmativa (cotas). Achei que se as pessoas soubessem talvez duvidassem da minha capacidade. Mas eu não precisava dizer a elas como entrei e nem ter medo de que julgassem se descobrissem – não é motivo de vergonha. Cotistas são tão capazes e merecem estarem ali tanto quanto os que entram como ampla concorrência. Eu nunca sofri preconceito direto em relação a isso, mas já ouvi muitas opiniões contra a política de ação afirmativa vindo de todos os lugares, colegas, professores, familiares, sempre em momentos de debate. Mas a realidade é que as cotas são uma ferramenta ainda importante de inclusão social.

Tanto cotas para estudantes de escola pública quanto cotas raciais são necessárias. A primeira devido à enorme disparidade na educação brasileira, principalmente ao se comparar o ensino de escolas públicas com o de escolas privadas, e a segunda devido a toda dificuldade de base histórica que os negros enfrentam até hoje, pois, querendo ou não, o racismo existe e está muito presente, as oportunidades não são iguais e isso fica claro ao observar, por exemplo, nossas universidades com tão poucos alunos e quase nenhum professor negro.

É difícil saber o que esperar para o ambiente de trabalho, tendo em vista as estatísticas e relatos. Tanto se ouve sobre mulheres sofrendo assédio no trabalho, sobre diferença salarial e outras coisas mais. Até lá deve melhorar, eu acredito. Pouco a pouco conseguiremos progredir. O feminismo já conseguiu muita coisa desde o direito das mulheres ao voto, muito ainda vamos alcançar.

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