Painel destaca que consumir também é fazer política

Painel da Virada Política 2018, que teve a participação do vice-presidente do Instituto Dialog, Sergio Marcondes, discutiu como as escolhas individuais e ações coletivas de consumo definem comportamentos, mercados e políticas públicas

Sergio Marcondes defende que cidadãos devem se envolver nas discussões sobre as políticas públicas de consumo

 

Por Michele Lima

Consumir também é fazer política? A pergunta instigou o debate e trouxe respostas para o tema em um dos paineis da segunda edição da Virada Política Rio 2018, realizada no dia 29 de setembro, no Museu da República, Zona Sul do Rio de Janeiro. Os painelistas Sergio Marcondes, vice-presidente do Instituto Dialog, Luiza Sarmento, do Mais Orgânica, e Beto Palmeira, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), iniciaram a conversa com o público destacando a importância de se pensar acerca dos aspectos individuais e coletivos do ato de consumir, que demandam políticas públicas direcionadas e influenciam comportamentos, mercados e indústrias.

A ideia de levar a reflexão das decisões pessoais de consumo para um cenário mais amplo, voltado aos grandes impactos sociais e ambientais envolvidos nesse contexto, foi a principal provocação deixada por Sergio Marcondes. “A gente vive num planeta de recursos limitados e somos 7 bilhões de habitantes. Para manter o padrão de consumo que temos nos países ditos emergentes e desenvolvidos, estamos impondo a quase metade da população do mundo ficar de fora da chamada sociedade de consumo. Isso, necessariamente, implica uma discussão coletiva de maior escala”, argumenta.

Os painelistas Sergio Marcondes, Beto Palmeira e Luiza Sarmento com o mediador do painel Eduardo Marinho

Marcondes também considera necessário fugir da superficialidade de algumas questões e buscar entender as reais implicações do consumo de água e energia e da geração de lixo e resíduos. O vice-presidente do Dialog lembra que, na recente crise de abastecimento de água em São Paulo, o Estado fez forte campanha convocando a população a economizar, quando, na verdade, se diagnosticou que a própria rede de abastecimento perdia 30% da água tratada. “Se desenvolve nas pessoas um certo sentimento de culpa e de responsabilidade, eu vou parar de lavar meu carro, vou tomar um banho menor, quando no âmbito da política pública você está perdendo simplesmente um terço da água e a economia individual tem uma contribuição marginal”, explica.

Para Sergio, não se trata de diminuir a importância da reflexão nas escolhas individuais, mas de qualificá-la e amplificá-la do ponto de vista do engajamento coletivo. “A ação individual tem um efeito… cultural, educacional da sociedade, absolutamente imprescindível, mas o indivíduo não pode, simplesmente, achar que ‘estou fazendo a minha parte’ e fechar os olhos para questões muito maiores do impacto”, resume.

O envolvimento pessoal no processo de melhoria das escolhas de consumo é um caminho necessário para avançar a percepção de um cenário micro para o macro. Luiza Sarmento acredita que “o ato de pensar e se esforçar em pequenas mudanças faz com que a gente aprenda a se engajar nessas esferas maiores… Traz para a nossa vida um entendimento do quanto podemos contribuir, mesmo que de forma pequena, para um debate amplificado”.

Luiza investiga maneiras de minimizar o desperdício e incentiva a conscientização acerca dos processos de consumo e de produção como forma de empoderar as pessoas. “Muitas vezes a indústria está em acordo com o poder público… se o cidadão não assume esse protagonismo, essa responsabilidade, a gente não consegue pilhar e provocar”, conclui, ao exemplificar como cidadãos podem gerar as mudanças desejadas.

Dinâmica de aquário integrou público e painelistas, gerando ampla participação no debate

A compreensão mais ampla sobre o tema permite entender até mesmo que tipos de mecanismos definem o acesso a alimentos como os orgânicos, ainda restritos à minoria da população. Beto Palmeira, militante da pauta agroecológica pelo MPA, lembra que cinco empresas controlam a distribuição de alimentos no Brasil, conectadas a um monopólio de 50 corporações mundiais, e definem os preços pagos aos agricultores e os valores cobrados ao consumidor final, nos supermercados e nas feiras.

Para o MPA, há um gargalo na distribuição da produção agroecológica, que passa pela pauta da soberania alimentar e pela necessidade de se obter subsídios de estado para viabilizá-la, assim como é feito com o agronegócio. “Não tem como baixar os preços dos orgânicos se não tiver política pública… o problema nao é técnico, é político”, afirma Beto, ao frisar o papel fundamental da sociedade para pressionar os governos.

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