Pessoas à venda

Há mais de cem anos, a escravidão é proibida em qualquer país do mundo. Na África, essa regra não existe. Pessoas são vendidas por cerca de R$ 2800 reais em leilões como se fossem mercadorias
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Na Líbia, país do norte da África, seres humanos estão sendo leiloados por até 1.200 dinares líbios / Foto: Wikicomons

Por Camila Nogaroli*

Negros aglomerados no chão de embarcações precárias. Negros oferecidos como mercadorias, agredidos e humilhados. Negros que anseiam por liberdade e uma vida melhor. O que nos remete a um passado marcado pela escravidão, sobre o qual aprendemos desde cedo nas aulas de História, é realidade em pleno século XXI: na Líbia, país do norte da África, seres humanos estão sendo leiloados por até 1.200 dinares líbios, valor equivalente a cerca de 2.880 reais (1 dinar = 2,40 reais; Banco Central – 02/01/18).

O crime foi denunciado no final de 2017 pela rede televisiva CNN. Com câmeras escondidas, eles mostraram o flagrante de um leilão de escravos fora da capital Trípoli: “Alguém precisa de um escavador? Esse é um escavador, um homem grande e forte para escavar”, anuncia o vendedor. Logo, os interessados começam a levantar as mãos para fazer suas ofertas – 500, 550, 600, 650 dinares. Segundo a jornalista Nima Elbagir, uma dúzia de pessoas foram negociadas em sete minutos nesta ocasião. A repórter tentou falar com dois dos homens vendidos, mas, assustados com o ocorrido e desconfiados de todos no ambiente, eles ficaram em silêncio.

Ao todo, a emissora recebeu informações sobre leilões em nove cidades diferentes, mas acredita-se que há mais do que isso. As autoridades da Líbia prometeram investigar a situação junto à Organização das Nações Unidas (ONU).

SONHO EUROPEU TERMINA EM VIOLÊNCIA

Para milhares de pessoas, a Líbia é uma porta de entrada para o Mar Mediterrâneo e, consequentemente, para a Europa. São refugiados fugindo de conflitos ou migrantes em busca de oportunidades, muitos vindos da África Subsaariana. Sendo assim, eles atravessam as fronteiras líbias para chegar à costa e embarcar clandestinamente rumo ao continente europeu.

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A Líbia é uma porta de entrada para o Mar Mediterrâneo e, consequentemente, para a Europa / Foto: Reprodução

Mas o sonho por dias melhores logo se torna um pesadelo. Barcos superlotados não conseguem avançar por conta da guarda costeira rigorosa, de modo que os passageiros – sem dinheiro, pois gastam todas as economias na viagem – viram reféns de milícias.

– Comprometidos a fugir, mas sem caminhos legais para a segurança, os refugiados estão expostos a danos terríveis, assim como os migrantes, incluindo tortura, estupro, exploração sexual, escravidão e outras formas de trabalho forçado – disse Filippo Grandi, Alto Comissário da ONU para Refugiados, reforçando que esses abusos proliferam onde a governança é fraca e as redes criminosas transnacionais se consolidam.

A reportagem da CNN esteve em um centro de detenção para migrantes, localizado em Trípoli. A história do nigeriano Victory, de 21 anos, é um exemplo do que acontece em grande escala: ele passou 1 ano e quatro meses e gastou tudo o que tinha tentando chegar à Europa; na Líbia, foi capturado junto com outros imigrantes, privado de comida e maltratado; os traficantes o venderam diversas vezes como escravo, dizendo que o lucro obtido serviria para quitar as dívidas do jovem; os contrabandistas também exigiram à família de Victory pagamentos de resgate, de modo que a mãe dele teve que pegar dinheiro emprestados de várias fontes. Por fim, ele foi liberado e aguardava para retornar à Nigéria.

Com tantas dificuldades, a maioria acaba desistindo de chegar à Europa. Em 2017, mais de 8.800 pessoas optaram por voltar para seus locais de origem, com a ajuda de voos de repatriação organizados pela Organização Internacional para as Migrações (OIM).

– Se você olhar para a maioria das pessoas aqui, se verificar os corpos, você vê as marcas. Elas são espancadas, mutiladas – falou Victory. – Eu não consegui, mas agradeço a Deus pela vida dos que conseguem. Não estou feliz, vou voltar e ter que começar do zero. É muito doloroso.

CRISE POLÍTICA NA LÍBIA

Durante 42 anos (1969 a 2011), a Líbia foi governada pelo ditador Muamar Kadafi. Após ele responder com opressão aos protestos da chamada “Primavera Árabe”, em 2011, manifestações contrárias ao regime se intensificaram. O chefe de Estado foi derrubado, com apoio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da aliança militar EUA-Europa, e morto por rebeldes.

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Kadafi liderou o país africano por mais de quatro décadas / Foto: Wikicomons

Desde então, a política está dividida: milícias se estabeleceram, grupos étnicos demonstraram interesses distintos e eleições parlamentares resultaram em dois governos buscando por legitimidade. Países do Ocidente que interviram para destituir Kadafi só voltaram a dar atenção à Líbia com a crise dos refugiados que eclodiu em 2015.

A instabilidade no meio político atraiu os imigrantes e refugiados e, consequentemente, fortaleceu a atuação das redes de tráfico de seres humanos.

*Camila Nogaroli é estagiária sob a supervisão do editor Renan França

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