Por que as notícias super locais fazem sucesso no Facebook?

Páginas administradas por iniciativa popular se tornaram fonte de informação, principalmente onde o jornalismo tradicional não chega
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Segundo estudo, há mais de 100 páginas no Facebook que se tornaram fonte de informação / Foto: Reprodução

Por Rogério Daflon

Apesar do peso global, a internet e, sobretudo, as redes sociais estão permitindo a formação de canais de notícias superlocais. São páginas ou grupos, principalmente no Facebook, que têm como foco uma região, um bairro, ou até uma rua. A ideia que motivou a criação de todos eles era a de reunir pessoas para tratar sobre qualquer questão de interesse da comunidade. Mas, com o aumento da violência no Estado do Rio de Janeiro, o assunto acabou monopolizando as atenções e, hoje, existem centenas de páginas administradas por iniciativa popular que se tornaram fonte de informação, principalmente onde o jornalismo tradicional não chega.

De acordo com um levantamento do pesquisador Pablo Nunes, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESEC), feito entre 2010 e 2017, no Brasil, há 156 páginas com esse perfil. Um exemplo é o grupo “Copacabana Alerta“, com 57 mil pessoas, onde se encontram relatos de moradores do bairro informando, por exemplo, sobre tentativas de assaltos, arrastões e tiroteios. No mesmo perfil, há a “A Voz do Engenho de Dentro“, também no Rio, curtida por 26 mil pessoas. Todas funcionando como uma diário da vizinhança local, em que todo mundo é produtor e, ao mesmo tempo, leitor do conteúdo produzido pelos próprios moradores.

– Essas páginas se tornaram fundamentais para muitos moradores que não sabem o que está acontecendo no entorno da vizinhança pela escassez de informação. No ano passado, houve um tiroteio na minha rua, e só consegui saber o motivo da ação através da página do bairro no Facebook. Se ficássemos esperando o Jornal Nacional fazer uma matéria, estaríamos até hoje sem informação – conta Mauro Caldas, morador de Coelho Neto. – As páginas dos bairros também são úteis, por exemplo, para informar sobre as mazelas da região, denunciar a falta de coleta de lixo ou até mesmo procurar pelo cachorro que fugiu. Mas, como a falta de segurança é o que mais afeta as pessoas, sem dúvida é o assunto mais presente.

CRESCIMENTO EM TEMPO DE CRISE DE SEGURANÇA

Alguns grupos, como o “Alerta Tijucano“, sobre o bairro da Tijuca e adjacências, na Zona Norte do Rio, quase triplicaram de tamanho nos últimos dois anos. Em 2015, havia cerca de 30 mil pessoas. Hoje, o espaço conta com quase 80 mil usuários. A página sobre a Tijuca, por exemplo, se tornou até estratégica para a Polícia Militar. Por meio de uma parceria com os moderadores, o 6º Batalhão da PM começou a analisar as postagens dos usuários em tempo real e a deslocar o patrulhamento de rua, após crimes como assaltos e roubos de veículos.

– Em um momento de crise, o uso da tecnologia é muito bem-vindo. Se a PM conseguir trazer eficiência para o patrulhamento, não há porque não utilizar as redes para proteger o cidadão – diz Deborah Miranda, moradora do bairro.

O ‘LADO B’ DAS REDES

Apesar da utilidade das páginas, o espaço criado e moderado pelos próprios moradores não é panaceia. Pela ausência de edição das postagens, qualquer tipo de conteúdo informativo pode ser publicado, abrindo espaço para mentiras e até postagens preconceituosas. Não é incomum encontrar publicações em que usuários relatam terem visto adolescentes negros andando em grupo com aspecto “suspeito”. Em algumas páginas em que há uma moderação mais presente, existe uma proibição quanto a esse tipo de comentário. Em outras, porém, como não há filtro, as postagens só são apagadas após críticas de membros do grupo.

– Boa parte dessas páginas apontam, entre aspas, pessoas suspeitas. O espectro do justiçamento, portanto, está quase sempre presente – afirma o pesquisador Pablo Nunes, indicando um dos efeitos da ineficácia do Estado na contenção da violência urbana. – E a falta de crédito da informação não está somente no Facebook, como também no WhatsApp e em outros aplicativos.

INCOMPETÊNCIA DO ESTADO E DISTANCIAMENTO DA MÍDIA TRADICIONAL

Apesar da ineficiência do Estado em conter a violência, boa parte da multiplicação das páginas se deve pelas imensas faixas do território fluminense sem cobertura informativa. Segundo a pesquisa “Mídia e violência: o que mudou em uma década?” (produzida em 2017 por Pablo Nunes, em parceria com a cientista social e coordenadora do CESEC Silvia Ramos, e a jornalista Anabela Paiva), há lugares mais bem cobertos do que outros pela imprensa. E é neste vazio que se inserem as páginas de Facebook.

Na publicação, por exemplo, foram analisadas reportagens de sete veículos de comunicação – entre eles, três de São Paulo e um do Ceará. O objetivo era investigar como jornais como O Globo, Extra, O Dia e alguns de outros estados tratavam da violência urbana no Rio de Janeiro. De acordo com o estudo, mesmo em jornais populares como Extra e O Dia, a Baixada Fluminense, onde os índices de homicídios são os mais altos do Estado percentualmente, não recebe tanta cobertura como a criminalidade na capital. Além disso, também há um desinteresse da grande mídia em cobrir cotidianamente o domínio das milícias em bairros da Zona Oeste.

CHECAGEM RIGOROSA DE INFORMAÇÃO

Outro problema destacado por Nunes é a falta de crédito da informação: na maioria dos casos, não se diz de onde ela surgiu ou quem a noticiou. Isso ocorre não somente nas páginas do Facebook, como também em grupos no WhatsApp e em outros aplicativos.

A jornalista Cecília Oliveira, uma das administradoras da página “Fogo Cruzado“, diz que, infelizmente, tal desleixo já teve consequências graves.

– No Fogo Cruzado, damos a notícia crua sobre onde estão ocorrendo os tiroteios. E, obviamente, uma das nossas maiores preocupações é em relação à checagem e ao crédito. Sem isso, este tipo de serviço, que visa a ajudar as pessoas a não ficar na linha de tiro, perderia muito em termos de credibilidade. No nosso caso, somos jornalistas e não adjetivamos as publicações – explica Cecília.

Ela lembra de um caso de uma página de Bangu que expôs um homem dizendo que ele tinha roubado um celular. Após a repercussão, o acusado – Ruan Belmiro, de 26 anos – resolveu processar por calúnia e difamação três páginas que disseminaram a inverdade. Em Araruama, houve outra situação: a de um casal que chegou a apanhar sob a acusação infundada de que seriam sequestradores de crianças.

Fica claro, dessa forma, que as páginas de Facebook, com algumas exceções, não usam critérios jornalísticos na hora de informar. Benito Quintanilha administra, com mais três pessoas, a conta “Onde Tem Tiroteiro-RJ” no Twitter. Ele conta seus cuidados para não incorrer em erros.

– O alcance da página hoje é de quatro milhões de pessoas. Temos 500 pessoas de confiança nas favelas do Estado do Rio. São de confiança porque elas vivenciam os fatos e, por isso, acreditamos quando elas nos relatam os tiroteios em suas comunidades – diz Quintanilha. – As pessoas são muito gratas, pois conseguem se desviar das rotas de conflito.

Já o administrador da página “Melhora Marechal Hermes” (que reúne 6,3 mil usuários), Thiago Lace, diz que essas iniciativas tiveram um campo fértil nos subúrbios.

– Aqui, na Zona Norte, estamos numa situação delicada. Não somos dominados por milícias, como na Zona Oeste, nem por traficantes, como nas favelas. E temos um policiamento precário, muito pior do que o presente na Zona Sul. Então, estamos numa espécie de limbo. Se há excessos? Há muitos. Na minha página, não, mas há páginas que exageram – afirma Lace.

ENTREVISTA COM ESPECIALISTA

Silvia Ramos, cientista social e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESEC) da Universidade Cândido Mendes 

1- A mídia tradicional tende mesmo a localizar suas coberturas de segurança nas áreas mais nobres da capital, abrindo espaço a essas páginas do Facebook?

R: Há uma desproporção tradicional entre a cobertura das áreas mais abastadas e a das mais pobres. Houve uma autoridade de segurança no Rio que declarou que um tapa no Leblon repercutia mais do que uma morte num bairro longínquo. Ocorre que um conjunto de eventos de violência (homicídios, tiroteios, mortes pela polícia, chacinas) acontecem concentradamente em áreas periféricas e favelas dos grandes centros, então os meios tradicionais tendem a cobrir muito as notícias de violência em certas favelas e em certos bairros pobres (Complexo do Alemão, Maré etc.), áreas onde esses veículos passaram a ter fontes ou áreas onde a polícia considera que os eventos são relevantes. Mas, quando olhamos a relação entre crimes ocorridos e crimes noticiados, é chocante a desproporção em áreas como Baixada Fluminense ou São Gonçalo. Não são só os homicídios, mas os crimes contra o patrimônio. Em sete meses de 2017, por exemplo, houve 22 roubos de veículo em Copacabana, 61 no Leblon, 3.672 em Nova Iguaçu e 3.380 em São Gonçalo. Os grandes meios só falam de São Gonçalo quando há chacina. Em nossa pesquisa “Mídia e violência: o que mudou em uma década?“, quando pesquisamos O Globo, Extra e O Dia, tivemos a surpresa de encontrar apenas 5,5% de textos mencionando a Baixada Fluminense, entre todas as matérias impressas publicadas sobre violência urbana em 2015.

2- Muitas dessas páginas, segundo a pesquisa, reforçam o “justiçamento” e o preconceito, quando apontam “pessoas suspeitas”. O que contribuiu para que chegássemos a esse ponto?

R: Entre as chamadas páginas hiperlocais (administradas por indivíduos e não por instituições e, em geral, associadas a redes de bairros e favelas), há de tudo: tradição comunitária e crítica em relação à violência policial e ao abandono das políticas públicas; há moradores indignados, que ora culpabilizam as autoridades, ora culpabilizam a impunidade e a justiça que solta criminosos; há policiais e milicianos. Há muito “bandido bom é bandido morto” e há muito “fora polícia corrupta”. Há páginas que se recusam a dar muita notícia de violência para não estigmatizar as favelas e há páginas que só publicam tragédias pesadas e vídeos chocantes. Em um encontro com administradores e administradoras de algumas dessas páginas, ficamos impressionados com o campo fértil para trabalhos futuros. Há um grande potencial para melhorar o padrão das comunicações, para profissionalizar minimamente algumas iniciativas e forte abertura para a adoção de práticas éticas de jornalismo (do tipo não publicar fotos de suspeitos sem confirmação, evitar imagens chocantes e dar crédito quando compartilhar publicações assinadas). Estamos entusiasmados e vemos um campo poderoso de valorização de páginas como produtoras de conteúdo extremamente relevante para a vida da cidade. Essas páginas estão baseadas em redes locais e em um enraizamento que a mídia tradicional nunca teve e nunca vai ter. Por que não pensar numa colaboração estruturada entre elas?

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