Por que o Brasil é um país com pouco Capital Social?

Somos um país solidário, mas, segundo especialista, esperamos demais o Estado resolver as coisas. Por que o Brasil é como é? Por que nos acomodamos? Saiba que somos assim, dentre outros fatores, pela ideia do Capital Social
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Protestantes encarando sozinho barreira policial. Por que não temos a tradição de protestar? / Foto: Pixabay

Por Camila Nogaroli*

O Brasil tem um povo solidário por natureza. Basta ver o que ocorre após grandes tragédias naturais, como, por exemplo, as chuvas e enchentes que atingem o país durante o verão. É comum que centenas de cidadãos se mobilizem por conta própria e criem redes de acolhimento para ajudar vítimas. Mas, à medida que o tempo passa, a solidariedade se dissolve e não há a mesma mobilização seja para cobrar melhorias do poder público ou para produzir mudanças a partir de organização e esforço da própria sociedade civil.

Há exceções, claro. Mas por que, em geral, não somos uma sociedade civil que vai frequentemente para a rua protestar? Por que não temos a tradição de compor conselhos e associações comunitárias ou de resolver um problema da cidade sem precisar acionar a prefeitura? A resposta passa, dentre outros aspectos, pela ideia do Capital Social.

– O povo do Brasil é solidário, só que, ao mesmo tempo, espera demais o Estado resolver as coisas. É difícil analisar como um todo, pois há vários “Brasis”, mas é como se o Capital Social daqui tivesse um limite. E isso é ruim, pois quanto mais Capital Social uma nação tem, melhor será a gestão de um país e mais poder terá o cidadão – diz a socióloga Anna Maria Peliano.

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O QUE É CAPITAL SOCIAL?

O pesquisador Augusto de Franco, considerado um dos maiores especialistas sobre o tema, afirma que o conceito de Capital Social diz respeito à interação e ao apoio mútuo entre os indivíduos como forma de fortalecer a democracia, efetivar mudanças em um lugar e promover desenvolvimento socioeconômico. Nesse sentido, as redes sociais – não as da internet, como o Facebook e o Twitter, mas as que representam as convivências no cotidiano – potencializam o esforço para alcançar um objetivo.

– Quanto mais conectada e mais cooperativa, ou seja, menos hierárquica, for a sociedade, maior o Capital Social. Um ambiente de suporte e união entre as pessoas é mais empoderador e aí cada uma delas se sente mais encorajada para fazer alguma coisa, para empreender, inovar, ajudar – explicou Augusto.

CAPITAL SOCIAL NO BRASIL, COMO ESTAMOS?

Os exemplos são esparsos, mas há demonstrações de Capital Social pelo país. Em São Paulo, por exemplo, um grupo de pais se mobilizou para viabilizar a reforma da escola municipal onde os filhos estudam. Já em Belo Horizonte, uma rede de motoristas escolares se juntou para, no horário livre, trazer gratuitamente crianças pobres do interior do Estado para fazer tratamento contra o câncer na capital mineira. Ou ainda em Guarapuava, no Paraná, onde moradores se mobilizaram para impedir a instalação de uma siderúrgica em um área rural da cidade.

Na visão de especialistas, porém, há diferenças regionais. A parte Sul do país é considerada uma das mais fortes em termos de Capital Social, principalmente quando comparada ao Nordeste, local onde o poder de mobilização das pessoas é mais fraco. Augusto de Franco explica o porquê:

– Joinville, em Santa Catarina, é uma das cidades mais fortes em Capital Social do Brasil. Certamente, a fundação alemã refletiu nisso, vindo a se tornar um lugar de empreendedorismo, de muitas associações de pessoas para fazer coisas juntas. Já no Nordeste, a dependência de políticas assistencialistas afastam o povo de mobilizações. Quanto mais você depender do clientelismo, menos Capital Social você vai ter. A sociedade dependendo do Estado vira um domínio do Estado, que é, por natureza, centralizador.

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O Brasil tem uma população solidárias, mas pobre em termos de Capital Social / Foto: Wikicomons

HISTÓRICO DO CAPITAL SOCIAL

Há registros de observação do fenômeno do Capital Social mesmo antes dele ser chamado por este nome. O filósofo francês Alexis de Toqueville registrou em seu livro “A Democracia na América”, escrito em viagem aos Estados Unidos em 1831, sua surpresa com a capacidade dos americanos de se associar livremente para resolver os problemas dos bairros e cidades. Mais tarde, já no século XX, autores como Robert Putnam e Jane Jacobs aprofundaram o entendimento da ideia de Capital Social dando contornos mais específicos ao conceito e Explorando a ideia de que os cidadãos e suas formas de organização definem a “vida” das cidades.

Atualmente, o tema é um dos elementos que constituem a nova sociologia das redes, na qual autores como Joseph Stiglitz, Albert-Laszlo Barabasi e o brasileiro Augusto de Franco constatam que o Capital Social não resulta da capacidade individual dos membros de uma comunidade, mas sim da maneira como eles se organizam. Quanto mais organizada em rede, com menos centralização e hierarquia, maior será a capacidade do grupo de resolver problemas.

– A capacidade de uma determinada comunidade produzir soluções por conta própria, chamada de capital social, deriva de diversos fatores históricos e culturais. Depende de como uma sociedade entende a ideia de “público”, como algo que pertence a todos ou algo que pertence ao governo. Hoje, com uma evolução na maneira como compreendemos as formas de organização em rede temos a possibilidade de encurtar os caminhos para organizações comunitárias mais autônomas e efetivas – afirma Sergio Marcondes, vice-presidente do Instituto Dialog.

AS BARREIRAS DO CAPITAL SOCIAL

Atualmente, são várias as barreiras que continuam prejudicando a capacidade de cooperar entre os cidadãos brasileiros. Por um lado, as pessoas anseiam por mudanças, sejam elas básicas ou estruturais, que envolvam desde o conserto de um buraco numa rua até a reforma de um hospital. Por outro, a cultura cívica de participação e associativismo, já tradicionalmente fraca, fica cada vez mais esquecida em tempos de opiniões divergentes, desavenças, desigualdades, escândalos de corrupção e elevados índices de violência.

– Nós temos um clima adversativo muito forte na sociedade, um guerreando contra o outro, defendendo os próprios interesses, criticando. Quando há um aumento dessa atmosfera hostil, há uma diminuição do clima de cooperação. E Capital Social é cooperação, no sentido de que, em rede, só tem um jeito de se trabalhar com outras pessoas: sem impor, de maneira colaborativa. Isso pressupõe uma confiança que nós não costumamos ver – esclareceu Augusto de Franco.

*Estagiária sob a supervisão do editor Renan França

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