O resíduo eletrônico: a reciclagem da tecnologia

Inspirado na economia circular, um geógrafo tenta reciclar eletrônico em um dos países mais produtores de lixo no mundo

Vitor Saboya (foto) no meio dos eletrônicos usados no galpão da empresa, na Zona Norte do Rio / Foto: Renan França

Por Renan França

A empresa é de reciclagem, mas a especialidade é de desfazer coisas. No galpão, onde é empilhado o material descartado, computadores, televisores e filmadoras, entre outros dispositivos, são minuciosamente analisados e, em seguida, desmontados em pedaços. Sobram plástico, ferro, cobre, alumínio e até ouro. Separados, podem ser vendidos. É como tirar dinheiro do lixo.

– Na teoria é bonito, mas o problema é que para atingir uma escala que torne a reciclagem de eletrônico algo lucrativo é muito difícil. O processo de coletar, desmontar e separar o que é valioso é muito caro. Tenho um propósito para o lixo, não ficarei rico, mas quero fazer a diferença – diz o geógrafo Vitor Saboya, proprietário da Zyklus, uma oficina de reciclagem de produtos eletrônicos, na Zona Norte do Rio.

Nas Américas, o Brasil é hoje o 2º país do mundo que mais descarta produtos eletrônicos do mundo – os Estados Unidos lideram a lista. Estima-se que por aqui, anualmente, sejam produzidas mais de 1 milhão de toneladas de aparelhos. E o número cresce a cada ano. Em 2017, a ONU estima que 48 milhões de toneladas deste tipo de lixo sejam produzidas no planeta.

Com as estatísticas indicando o aumento do descarte, Saboya viu uma oportunidade. Mas para dar certo, precisou remodelar seu negócio. A ideia era desmontar, por exemplo, placas de computador e vender para fornecedores especializados. O entrave era acumular placas em uma quantidade suficiente que tornasse o negócio viável. Como mais de 50% do lixo que a empresa recebia era “recuperável”, ou seja, poderia voltar a funcionar, a ideia foi criar uma nova especialidade: consertar aparelhos e vendê-los de volta ao mercado, com um preço mais baixo.

MODELO NOVO, RECEITA NOVA

A nova ideia foi materializada ao criar a “Tem Jeito”, uma segunda marca que vende produtos recondicionados. O formato do negócio permite a venda, por exemplo, de um notebook a R$ 300. Antes de serem postos à venda, os aparelhos sofrem reparos, são testados e vão para o comprador com garantia. Hoje, a parte de venda de eletrônicos usados corresponde a quase 70% do faturamento – que ainda não fecha no azul.

– Tenho confiança porque nossa projeção aponta a recuperação do investimento a partir do ano que vem – afirma Saboya. – Nosso negócio tem um impacto positivo, tanto ambiental quanto social, porque retira resíduo do mercado e, ao mesmo tempo, promove a inclusão digital de muita gente que não pode comprar aparelhos eletrônicos novos. Eu espero que as pessoas vejam valor nesse tipo de trabalho porque o planeta precisa.

ECONOMIA CIRCULAR

Mesmo trabalhando numa escala local, o negócio de Saboya faz parte da chamada Economia Circular. Um processo que não só recicla um aparelho eletrônico, como pretende reutilizar um produto ao máximo com o mínimo de desperdício. A Economia Circular é a tentativa de uma mudança radical na forma de produzir, pois busca quebrar paradigmas na forma de fazer e reaproveitar um material. Para isso, investimento em inovação é fundamental. O processo se inicia na escolha das matérias-primas, passando pelo desenho dos produtos e pelo aproveitamento dos subprodutos industriais.
O modelo subverte o conceito da “Economia Linear”. Praticado pela maioria das empresas, o processo “extrair–produzir-descartar” mostra que, se não for revertido, há um risco do esgotamento de matérias-primas. Além disso, no modelo de produção que não pensa na reutilização, gera-se um volume sem precedentes de resíduos inutilizados e potencialmente tóxicos para o homem e o ambiente.

CASO SUECO

Enquanto o planeta sofre para lidar com o problema dos resíduos sólidos, há um país querendo comprar lixo. Esse é o caso da Suécia, que devido ao eficiente modelo de reciclagem, as usinas geradoras de energia elétrica e térmica a partir da incineração de lixo ficaram sem “matéria-prima” no final do ano passado. A solução foi importar lixo de países vizinhos.

No país escandinavo, as usinas de incineração produzem 20% da energia fornecida a 250 mil famílias. Por lá, o nível de maturidade no assunto é tão grande na questão de reaproveitamento dos resíduos que apenas 4% do lixo é enviado para aterros sanitários. Será que um dia o Brasil chegará lá?

 

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