A vida às escuras na Ilha dos Papagaios, em Belém

Ribeirinhos vivem numa das regiões mais isoladas de Belém, onde não há energia elétrica. Sem pressa, sonham um dia reunir a família para ver a novela na tv

Ilha do Papagaio: local é lar de algumas famílias ribeirinhas que escolheram e se acostumaram a viverem isolados / Foto: Custodio Coimbra

Por Renan França

Os pés de açaí balançam forte quando o vento de maresia sopra. Por ali, entre as casas de palafita, o tempo do relógio, esse inimigo das grandes cidades, é companheiro de quem leva a vida sem pressa. Está quase na hora do almoço e a família está reunida na casa de um cômodo só. Sobre a mesa, um prato com farinha d’água e uma tigela de açaí indicam que não há fartura para ninguém. Da janela sem cortina, um feixe de luz clareia o rosto de Maria Pantoja, de 60 anos, a matriarca da família, que entra na sala e autoriza as crianças a começarem a comer.
– Eu gosto de reunir todo mundo na hora do almoço porque a gente se vê, um fala com o outro. De noite é uma escuridão só. Fica cada um no seu canto, olhando pela janela vendo o tempo passar. Às vezes, a gente usa uma lamparina. Desculpe o meu dizer, mas não é porque eu nunca tive luz elétrica em casa que não vou querer ter. Mas um dia ela chega, não tenho pressa. Só não posso morrer antes de poder reunir a minha família na sala para ver novela – afirma Maria, que mora numa casa com os cinco netos e dois filhos.

Estamos na Ilha dos Papagaios, um pedacinho de terra a 15 quilômetros de Belém, no meio da Baía do Guajará. O local é lar de algumas famílias que escolheram e se acostumaram a viverem isolados – de pessoas e da “modernidade”. São belenenses que mal conhecem o cheiro de peixe do mercado Ver-O-Peso e não estão por dentro do que ocorre no dia-a-dia da capital. Sem luz, não assistem TV,  não podem ter geladeira em casa. A água que bebem geralmente é da chuva. Os moradores da Ilha dos Papagaios estão em 2017, mas vivem como se estivessem no século XVIII. E eles são apenas um exemplo pequeno diante da quantidade de brasileiros que ainda moram em locais sem luz.

– Não vou dizer que é fácil, mas sei que muita gente no Pará e no Brasil mora no escuro. Mas o que adianta ter luz, como os moradores de Belém, e ter medo de sair na rua porque podem ser assaltados? Melhor aqui, que tem paz, conheço todo mundo. E que mesmo sem luz a gente consegue se virar – conta Cleice Pantoja, uma das filhas de Maria, que morou por alguns anos com o pai em Belém, mas que não se adaptou à capital.

ALTERNATIVA PARA AS CRIANÇAS

Há um sentimento dúbio de querer ser atendido pela rede elétrica, mas ao mesmo tempo não cogitar mudar para uma cidade iluminada. Não ter energia em casa faz falta? Faz, mas de um jeito ou de outro as barreiras são superadas. Quem sofre mais na Ilha dos Papagaios são as crianças, que reclamam de não terem lugar para brincar e estudar à noite. Por isso, a casa de Edgar Pantoja, de 65 anos, irmão de Maria e considerado o morador mais antigo da ilha, é tão disputada pelos pequenos depois que o sol se põe. Graças a um gerador, Edgar tem luz em casa por cerca de três horas todos os dias. E é com esse atrativo que recebe boa parte das crianças na sala de casa.

– Eu gasto dinheiro com isso, mas é bom. As crianças vêm para cá, ficam correndo, jogando bola. Gosto de ver eles bem felizes já que aqui não tem tanta coisa para fazer. Ainda bem que vão para a escola na Ilha do Combu, se não iam crescer sem nada na cabeça igual a mim. Por isso eu cobro o estudo deles. Pode vir para cá brincar, mas também tem que fazer o dever – afirma Edgar, que conseguiu que um barco leve diariamente as crianças de Papagaios até a Ilha do Combú, onde estudam.

Por ser um dos poucos moradores com renda, Edgar é uma figura fundamental na Ilha dos Papagaios. Uma vez por mês vai a Belém receber a aposentadoria do INSS e aproveita para comprar remédios. As horas na capital também servem para adquirir um pouco de comida – carne de sol e peixe são mais recorrentes – e gelo que compartilha com os parentes e vizinhos mais necessitados.

– Aqui um ajuda o outro. O pessoal aqui queria ter luz para ter geladeira para conseguir fazer uma renda. A gente poderia, quem sabe, construir um restaurante para chamar turista aqui na ilha.

PLANO DE EXPANSÃO DE ENERGIA

O sonho, contudo, não é algo tão distante. No início da década, a Celpa (Centrais Elétricas do Pará), empresa responsável por distribuir energia no Pará, iniciou um processo de expansão da rede elétrica que beneficiou algumas comunidades rurais, ribeirinhos e pequenos agricultores. Nos últimos dois anos, garante a empresa, cerca de 400 mil pessoas passaram a ter luz elétrica dentro de casa.

– Muitos brasileiros desconhecem que uma parte considerável da população ainda vive no escuro – afirma Patricia Bernardi, executiva de expansão do sistema em alta tensão da Celpa, sem revelar, porém, números de quantos habitantes no Pará vivem sem luz. – Se olharmos para a história, o desenvolvimento de uma região e a melhora no padrão de vida em determinada sociedade muitas vezes acompanham a evolução do consumo de energia. Por isso, é fundamental o trabalho de expansão para o desenvolvimento econômico e social das áreas beneficiadas.

O projeto é complexo e caro. Pela proximidade com Belém, a Ilha do Marajó, região com 18 municípios, foi escolhida como piloto para a ampliação da rede. Na primeira fase, seis cidades foram iluminadas graças à instalação de torres e cabos elétricos esticado sobre a Baía do Guajará. A empresa estima que o custo total do projeto foi de R$ 180 milhões.

– Vamos entrar agora na segunda fase, que pretende levar iluminação a mais 12 municípios até 2020. É um processo lento, mas com um impacto fundamental no desenvolvimento das cidades.

ENERGIA CRIA OPORTUNIDADE

Para o consultor da FGV Energia, Paulo Cesar da Cunha, a chegada da rede elétrica contribui principalmente para dar um salto em serviços públicos. Um das áreas que se beneficiariam da rede elétrica, por exemplo, seria a educação, desde que também chegue o acesso à internet:

– Uma cidade sem luz fica praticamente isolada do mundo. Nos últimos vinte anos, tivemos uma revolução tecnológica muito grande. Quem ainda não tem luz, vive quase em um mundo paralelo. É preciso aproximar essas pessoas e aproveitar a chegada da luz para o investimento em educação. Cria-se oportunidade para o ensino à distância, que, às vezes, é a única solução.

Uma das alternativas para a expansão da rede elétrica no Pará é a energia solar. A Celpa enxerga o mercado como uma oportunidade, mas afirma que os estudos para a implementação ainda estão sendo elaborados. Enquanto isso, a empresa afirma que além do Marajó outras áreas que vão receber energia elétrica estão sendo analisadas. A Ilha dos Papagaios, por exemplo, é uma delas. Maria e Edgar Panjota, os moradores ilustres daquele recanto, esperam, sem pressa, pelo dia da primeira novela.

 

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