Silêncio Futebol Clube: o time que não dá show fora do gramado

Enquanto atletas americanos se posicionam, jogadores brasileiros ignoram questões políticas. Por que nossas estrelas preferem o silêncio às declarações?
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No Brasil, por inúmeras razões, os rostos mais famosos do esporte preferem o silêncio às declarações políticas / Foto: Wikicomons

Por Renan França

Na história recente da NBA, pela primeira vez, a atual equipe campeã da liga de basquete não fará uma visita à Casa Branca para receber as honras do presidente. O encontro com os astros do Golden State Warriors estava marcado para o início do próximo ano, mas foi desmarcado, após Donald Trump se envolver em uma polêmica com uma das principais estrelas do time, o armador Stephen Curry.

Tudo começou após um discurso de Trump, no qual criticou atletas de outros esportes americanos, como os da NFL, Liga de Futebol Americana, que, segundo ele, desrespeitaram símbolos nacionais ao ajoelharem durante o hino americano para protestar contra a violência policial.

O discurso, porém, gerou críticas de atletas e dirigentes tanto da NFL, quanto da NBA. Stephen Curry disse que votaria para seu time não ir à visita na sede do governo em Washington – como, de fato, ocorreu. E os protestos, que vinham ganhando adeptos desde o ano passado, começaram a repercutir ainda mais, atraindo as principais estrelas do esporte americano.

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O ex-presidente Obama (centro) recebe na Casa Branca a delegação do Golden State Warriors, campeões da NBA em 2015 / Foto: Pixabay

Paralelamente à crise no Hemisfério Norte, o Brasil vive um dos momentos mais conturbados politicamente de sua história recente. Por aqui, a sociedade está polarizada, mas nossos rostos mais famosos do esporte preferem o silêncio às declarações. Não é nem preciso ir longe para lembrar que a última Copa foi disputada no Brasil, concomitante a inúmeros protestos contra a realização do mundial, e o assunto foi praticamente ignorado pelos jogadores.

– No Brasil, parece que se cria jogador só para jogar. O futebol tem apelo, mas não podemos contar com os atletas para desenvolver uma consciência política. Primeiro, eles pensam em ganhar dinheiro. Depois, conseguir um contrato fora do país para ganhar ainda mais. E, com isso, não estão nem aí para a situação do país. Todos moram fora e possuem uma relação financeira estável, independente do que ocorre no país. É assim que pensam, infelizmente – afirma Amir Sommogi, consultor em marketing esportivo.

VIDA FORA DO BRASIL

Parte do afastamento se explica, de fato, pela vida distante do dia a dia do país. Tome como exemplo os 11 jogadores titulares na última partida da seleção nas Eliminatórias para a Copa, na semana passada. Praticamente, todos os atletas saíram do Brasil com até 19 anos. O meia Philippe Coutinho, por exemplo, foi vendido pelo Vasco ao Inter de Milão em 2010, quando ainda era menor de idade. Nota-se, portanto, que dificilmente conseguem, por exemplo, votar em eleições, a não ser através do pouco frequente voto no exterior.  No caso de alguns, é provável que sequer tenham votado na última eleição, pois já moravam fora do Brasil.

– Já o que ocorre nos Estados Unidos é o oposto. O que vemos lá são esportistas que não só nasceram em território americano como também vão construir a carreira no país. Além disso, há uma diferença básica: são raros os atletas que não possuem ensino superior, o que faz aumentar muito o capital cultural deles e as noções sobre a democracia. Junte a isso algumas características como o patriotismo americano e o sentimento de retribuir à nação tudo o que ela deu aos atletas, no caso deles, formação acadêmica e mercado de trabalho esportivo. Isso reflete sobre o que cada um pensa a respeito do país – explica o medalhista olímpico Robson Caetano – Quando um cara como Trump começa a dar declarações desastrosas, os atletas se incomodam e reagem. Principalmente, neste caso, em que os jogadores estão fazendo um protesto legítimo. Mobilização por uma causa é o que falta por aqui.

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BOM SENSO FUTEBOL CLUBE

Em 2013, jogadores brasileiros chegaram a ensaiar uma mobilização – que tinha mais objetivos esportivos do que políticos. Denominado Bom Senso F.C., o movimento liderado pelos zagueiros Paulo André e Juan, além do meio campista Alex, entre outras coisas, exigia mudanças no calendário do futebol, pagamentos de salários em dia e a participação nos conselhos técnicos das entidades que regem o futebol nacional. Mas, aos poucos, a iniciativa foi perdendo adesão. Em 2015, mesmo com a prisão do presidentes da CBF, José Maria Marin, os jogadores não conseguiram ganhar voz. O Bom Senso F.C. encerrou suas atividades em meados do ano passado.

– Muitos atletas ficaram com medo de sofrer represálias internas de seus clubes ao participarem do movimento e, por isso, preferiram sair.  Além disso, faltou a participação de atletas com mais renome para que o Bom Senso pudesse capitalizar mais as ações. – disse um dos participantes, que prefere não ter o nome citado – Se não é possível lutar pelo direito esportivo, que dirá pela política do país.

PASSADO DIFERENTE

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O craque Sócrates, o “Magrão” para os íntimos, liderou a Democracia Corinthiana, e se posicionou a favor do movimento “Diretas Já” / Foto: Wikicomons

Só que, no caso do Brasil, nem sempre os atletas deram de ombros às questões políticas. Entre 1981 e 1985, em um Brasil que ainda estava às sombras da Ditadura Militar, jogadores do Corinthians, capitaneados pelos líderes do elenco Sócrates e Casagrande, criaram um movimento denominado Democracia Corinthiana, em que os atletas resolviam através do voto questões internas como contratações e local de concentração. A ideia, claro, era protestar contra o governo dos militares que promoviam prisões arbitrárias e torturas, de modo que a maioria dos cidadãos tinham seus direitos suprimidos.

O epílogo do movimento é emblemático. Sempre politizado, Sócrates se envolveu com o movimento Diretas Já, que, na época, cobrava eleições diretas para presidente. Ele chegou a discursar em comícios para milhares de cidadãos, clamando que a emenda Dante de Oliveira, que estabeleceria as eleições diretas no país, fosse aprovada. Sua permanência no Brasil estava condicionada à aprovação da emenda. Como isso não aconteceu, acabou se transferindo para o time italiano Fiorentina, em 1984.

O CRAQUE QUE ‘PAROU’ A GUERRA

E há casos em que o envolvimento da política com o futebol ganhou contornos cinematográficos. Como ocorreu com o atacante Didier Drogba e a guerra civil na Costa do Marfim. Em 2005, após a histórica classificação do país para a Copa do Mundo, Drogba, ainda nos vestiários, gravou um vídeo em que implorava pelo fim da guerra civil que assolava o país. A partir daquele momento, o apelo do craque acabou sendo considerado pela história como o ponto de partida do processo de cessar-fogo no país, e o atleta virou um elemento de integração nacional.

ZAGUEIRO A FAVOR DA INDEPENDÊNCIA

Das ruas efervescentes de Barcelona, vem um dos exemplos mais recentes entre a “simbiose” política-futebol. Por lá, o zagueiro Piqué, ídolo do Barcelona, engrossa o coro que vai às ruas pedir pela independência da Catalunha. O jogador sempre se disse favorável à realização do referendo, e, no início de outubro, antes de um partida válida pelo Campeonato Espanhol, se apresentou para votar a favor da separação. Na tarde do referendo, após a jogo vencido pelo Barcelona, quando perguntado pelos repórteres sobre o assunto, Piqué se emocionou ao falar sobre os conflitos violentos que ocorriam na mesma hora em que estava em campo e, pela primeira vez, ameaçou deixar a seleção espanhola.

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O zagueiro catalão é uma das figuras esportivas mais importantes a favor da separação da Catalunha / Foto: Wikicomons

Para Marcos Bedendo, professor de Gestão de Marca da ESPM e sócio-consultor da Brand Wagon, é compreensível que atletas como Neymar não se posicionem politicamente, pois ele tem mais a perder do que a ganhar.

– A “função” da marca Neymar é ser comprada por outras marcas. E quando o Neymar coloca sua marca à disposição de outras empresas, ele está colocando, na verdade, a conexão que ele tem com o público. Logo, se uma Nike ou Coca-Cola querem contratá-lo, é inviável que o atleta tenha um posicionamento político, pois irá desagradar consumidores daquela marca. Se eu fosse da equipe dele, vetaria qualquer declaração política, como já é vetado. É uma questão mercantilista. Falar de política não faz ganhar nada economicamente; pelo contrário, só perder – afirma Bedendo.

Ainda de acordo com o professor, o que ocorre no mercado americano é que as marcas possuem um capital de risco para colocar em jogadores que, eventualmente, se posicionam a favor de um causa ou até contra um político.

– Se amanhã o Lebron James declarar apoio a um candidato, pode ter certeza que essa marca já sabia ou imaginou que ele tomaria tal decisão, colocando nos cálculos o prejuízo ou lucro que isso acarretará. O que ocorre atualmente nos EUA é que os atletas se posicionaram a favor de uma causa, que acaba esbarrando na política, o que, para as marcas, é mais problemático. De qualquer forma, o mercado por lá é mais maduro, funciona em uma lógica mais mercantil.

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