Uma inspiração para resistir ao caldeirão polarizado das eleições de 2018

Conheça o exemplo de tolerância e diálogo da ativista negra americana Keshia Thomas, que salvou um suposto integrante da Ku Klux Klan de linchamento

Registro do fotógrafo Mark Brunner, vencedor do prêmio fotográfico da Life’s Magazine em 1996: Keshia Thomas (ao centro) protege um suposto membro da Ku Klux Klan

Por Tulio Brandão

A americana Keshia Thomas era uma jovem negra de 18 anos, moradora da simpática Ann Arbor, nos Estados Unidos, quando se juntou a defensores dos Direitos Humanos em um protesto pacífico contra uma reunião da Ku Klux Klan (KKK) na cidade. Naquele distante 1996, mais de duas décadas antes da tragédia de Charlottesville, tudo parecia correr bem, até que um suposto integrante do movimento de supremacia branca foi identificado, com uma tatuagem da SS (sigla da polícia do Estado nazista) no braço.

A centelha esbarrou na pólvora. Correria para todos os lados e, logo, o possível supremacista tatuado estava no chão, cercado por uma multidão a linchá-lo, ali mesmo, no meio de uma rua da cidade-sede da Universidade de Michigan.

Keshia, em vez de se juntar aos linchadores, jogou-se sobre o corpo já machucado do manifestante, protegendo-o de novas agressões. O linchamento foi interrompido: a estudante conseguira a façanha de lançar lucidez sobre o grupo em fúria.

Sem saber, ali, mudava a sua história. E a do aparente integrante da KKK também.

SÍMBOLO DE TOLERÂNCIA

O instantâneo da jovem negra usando seu corpo como um escudo para defender um supremacista branco, registrado pelo fotógrafo Mark Brunner, foi escolhido pela Life’s Magazine como uma das imagens do ano de 1996. E, claro, transformou-se em um símbolo da tolerância, em um exemplo de como conviver com a diferença.

Aqui vai um detalhe importante: a estudante defendeu o homem ainda que soubesse que, no chão, provavelmente, estava alguém que não reconhecia a totalidade de seus direitos civis. Ela, por outro lado, não negou os direitos dele. Um caminho difícil, mas fundamental para a mudança.

– O ato de 1996 não apenas inspirou as pessoas sobre a tolerância, mas também mostrou que a melhor opção é a compaixão e o amor. Não termos o mesmo ponto de vista, seja ele qual for, não dá a alguém o direito de machucar ou de matar. Esse é um ponto fundamental. O mais louco sobre isso é que as perspectivas mudam, os tempos mudam, as visões mudam – disse Keshia em entrevista ao Socioeconomia.org.

Hoje uma ativista internacional na luta pelos Direitos Humanos, ela discute o país de Donald Trump e uma sociedade que segue legitimando o racismo por meio de aparentes soluções de Estado, como o uso indiscriminado de “tasers” – as armas de incapacitação largamente utilizadas pela polícia dos EUA. A ONU declarou, há dois meses, que essa arma não letal tem sido usada como objeto de tortura, violando a convenção da entidade. Entretanto, Keshia vê problemas também na oposição:

– Definitivamente, eu não apoio o Trump, mas você sabe o que eu acho desafiador? Não há problemas apenas com a extrema direita. Descobri, com o tempo, que a ignorância existe também na esquerda. O que as pessoas têm que fazer é remover os rótulos, remover todos os rótulos das organizações das quais participam. É preciso ir ao ponto central da questão e equilibrá-lo numa escala de justiça. É certo? Não é certo porque este grupo diz, nem errado porque outro diz. Não fuja do diálogo – defendeu a ativista.

O RISCO DA POLARIZAÇÃO

No caldeirão brasileiro de 2018, com dois candidatos à presidência turbinados pela perigosa droga da polarização, ou seja, dois candidatos que correm o risco de se transformar em projeções distorcidas de convicções pessoais apaixonadas de eleitores, a tolerância de Keshia é um remédio salvador, a única possibilidade de evitar a doentia convulsão social que nos espreita. Ela sustenta o exercício do diálogo:

– Quando alguém está falando, não escute apenas para contestar o que está sendo dito. Num diálogo, este é o primeiro movimento de xadrez. Escutar o que o outro disse e repetir o que ele está dizendo, para depois, em um segundo momento, pensar em como resolver o problema. A armadilha é que, muitas vezes, gastamos tempo demais  arguindo, contestando, sem pensar em solução.

Antes do fim, a quem estiver se perguntando se o ato tolerante de Keshia valeu a pena, saiba que certo dia ela estava em uma cafeteria, quando foi abordada por um rapaz, que lhe disse um inesperado “obrigado”. Ela perguntou a razão e ele respondeu de pronto:

– Porque você salvou a vida do meu pai.

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