Artigo: Sobre ‘ataques’ a museus e perspectivas para 2018

Agenda política e econômica acabou influenciando na esfera da cultura / Foto: Wikimedia Commons

Por Eduardo Bonaldi

Na gênese do impeachment, já era possível discernir um amplo arco de grupos e de interesses (materiais e ideológicos/culturais) que se retroalimentavam em protestos de rua, embates parlamentares, interpretações e opiniões circuladas na imprensa, ou mesmo na elaboração jurídica das dezenas de pedidos de impeachment contra Dilma Rousseff. Mercado financeiro, agronegócio, bancada evangélica, as elites políticas do PMDB, DEM e PSDB e agentes do campo jurídico estimularam e foram estimulados pelas manifestações pré-impeachment, caracterizadas por um razoável grau de sobrerrepresentação por parte da classe média, branca e com Ensino Superior completo.

Este conjunto de alianças plasmou rapidamente uma agenda política liberal no campo da economia – ou seja, uma agenda contra o intervencionismo estatal na economia – e conservadora-moralista na esfera da cultura e da sociabilidade. Dito de outro modo, um lado dessa agenda passou a estimular, portanto, tentativas de intervencionismo (estatal e/ou moral) nas esferas da arte, da cultura e da sociabilidade: movimento em sentido aparentemente contraditório à tomada de partido anti-intervencionista no campo da economia.

Nesse quadro, a recente sequência de intervenções à liberdade de criação/expressão artística não poderia ser pensada como reação – por parte de alguns componentes desse amplo espectro de alianças – ao esmaecido apoio que a opinião pública tem manifestado à plataforma e aos resultados econômicos produzidos, até o momento, pela dimensão puramente material e econômica da agenda pós-impeachment?

A reforma trabalhista suscitou reações desfavoráveis de três quintos da população, enquanto a reforma previdenciária tem se mostrado politicamente mais sensível e incerta, contrariando cerca de 70% dos brasileiros. O superlativo e persistente contingente de 13 milhões de desempregados é agravado, por sua vez, pela subocupação de cerca de um quarto dos trabalhadores brasileiros, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral (PNAD), divulgada pelo IBGE em novembro de 2017.

Esse contexto tem desenhado um possível cenário de anemia eleitoral por parte de programas de cortes, reformas ou ajustes caros à agenda econômica liberal: de fato, ao menos até o presente momento, as candidaturas associadas à radicalização/continuidade da política econômica de Temer/Meirelles não têm gerado momentum nas prospecções de intenção de voto para as eleições presidenciais de 2018.

Os recentes ataques contra a liberdade de criação/expressão artística e intelectual parecem revelar, portanto, um deslocamento de energia, tempo e recursos, por parte de redes e grupos ativistas/militantes pró-governo, da defesa pública de cortes e reformas do Estado para a dimensão “conservadora-moralista” da agenda pós-impeachment. É justamente nesse sentido que tais redes e grupos parecem ensaiar a performance “pós-materialista” da agenda política dominante.

Na década de 1970, pós-materialismo era a noção proposta pelo cientista político Ronald Inglehart para argumentar como a segurança econômica experienciada na Europa ocidental e nos Estados Unidos, ao longo das três décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, predisporia as gerações vindouras à politização de valores não-materiais e de questões extraeconômicas. Naquele momento, valores, símbolos e estilos de vida avançados pelo feminismo, pelo ambientalismo, pelo movimento dos direitos civis nos EUA, ou pela efervescência contracultural dos anos 1960, pareciam, de fato, reiterar a tese pós materialista de Inglehart.

O uso do termo no contexto brasileiro contemporâneo compreende, entretanto, uma realidade bem distinta. Aqui, as tensões distributivas e materiais – próprias a um dos países mais desiguais do globo – estão sendo presentemente intensificadas pelas opções de política econômica do governo interino. Em tal conjuntura, não é propriamente surpreendente que uma parte, ao menos, dos grupos, agentes e interesses pró-impeachment tendam a deslocar suas energias/recursos ativistas e militantes à promoção de valores, polêmicas e questões extraeconômicas.

Olhando para 2018 a partir deste nada alentador final de 2017, podemos nos perguntar, por um lado, se esse ensaio ‘pós-materialista’, de inclinação abertamente conservadora e moralista, não dará forma a uma conjuntura ideológica e cultural propícia à ampliação do poder social e legislativo de grupos e perfis eleitorais reacionários, já fartamente representados em nossas câmaras e assembleias legislativas país afora. Por outro lado, no entanto, é de se imaginar que, na campanha presidencial (bem como, provavelmente, nas campanhas para os Executivos estaduais), as privações econômicas e sociais, vivenciadas por amplas camadas do eleitorado durante a crise, virão a torná-lo pouco receptivo a manobras e tergiversações “pós-materialistas”.

Assim sendo, para além dos preocupantes níveis de desconfiança e de fragmentação que caracterizam nosso sistema partidário, as eleições de 2018 podem, de fato, ser um tanto quanto estranhas: na arena das disputas por cargos legislativos, essa atmosfera ideológica e cultural poderá recrudescer candidaturas e temáticas ‘pós-materiais’, temperadas ao ‘menos refinado’ dos paladares conservadores; já nas disputas pelo Executivo, algum aportuguesamento do conhecido mote “It’s the economy, stupid!” poderá se impor entre os milhões de eleitores e eleitoras que têm sofrido as consequências da crise econômica, experienciada desde o fatídico segundo mandato de Dilma Rousseff.

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