Você está preparado para a ‘Era da Singularidade’?

Tema de filmes de ficção científica, Inteligência Artificial estará cada vez mais presente no mundo moderno
era da singularidade, socioeconomia

Fenômeno tratado como a “Quarta Revolução Industrial” promete bagunçar a organização das sociedades globais / Foto: Wikicomons


Por Pilar Magnavita

Quando, em 1870, o escritor francês Jules Verne publicou “20 mil léguas submarinas”, no qual descrevia um veículo gigantesco que podia descer profundidades oceânicas, as pessoas vislumbraram o submarino como pura ficção científica. A invenção, no entanto, já havia tido 14 patentes até a ocasião – incluindo um desenho de Leonardo Da Vinci, no século XVI. Só que nenhum dos projetos obteve sucesso nos testes nas profundezas dos mares. Foi preciso chegar ao conhecimento matemático e tecnológico necessário para que a ficção se tornasse hoje uma realidade banal.

É mais ou menos com esse pensamento que os cientistas pioneiros da Inteligência Artificial (IA) estão enxergando o futuro tecnológico para 2045. A data marca o que eles chamam de Singularidade, um fenômeno tratado como a “Quarta Revolução Industrial”, que promete bagunçar a organização das sociedades globais – principalmente o mercado de trabalho como conhecemos hoje.

Basicamente, as escolas de pensamento da inovação no Vale do Silício, Reino Unido e na Alemanha identificam que a IA será tão desenvolvida que não haverá mais profissões que desempenham trabalhos manuais remunerados (à exceção da arte) e a produção em larga escala não dependerá de humanos para gerenciá-la. Nesse novo mundo, o trabalho humano será inteiramente intelectual.

LEIA MAIS: Por que o Brasil pode voltar no tempo na área de inovação?

 

O QUE MUDA COM A SINGULARIDADE

Um expoente dessa escola de pensamento da Singularidade é o futurologista americano Ray Kurzweil, autor de “A singularidade está próxima”, publicado em 2005 e ainda sem edição em português. É nesta obra que pela primeira vez aparece o termo cunhado pelo futurologista, que se baseou nos estudos sobre inteligência artificial iniciados a partir de 1950 para entender o fenômeno.

O termo “singularidade” originalmente veio da Física e serve para explicar o momento no qual um determinado fenômeno é tão extremo e disruptivo que equação matemática nenhuma, já conhecida, dá jeito de explicá-lo. Transportada para a tecnologia, a Singularidade vai além da previsibilidade e capacidade de plena compreensão do fenômeno.

Por isso, essa predição do futuro enxerga que as máquinas serão mais inteligentes do que os humanos e as sociedades irão se reestruturar inteiramente em valores, organizações e meios produtivos para uma era de muita prosperidade. Segundo os cálculos de Kurzweil, esse cenário se dará a partir de 2045.

 

Os futurólogos acreditam que o avanço da tecnologia vai demandar das sociedades menos apego a valores tradicionais. Eles preveem que o contato maior com a IA deve erradicar diferenças, preconceitos e melhorar a convivência, uma vez que todos se reconhecerão mais semelhantes diante das máquinas. Espera-se também que a própria organização dos países ganhe fronteiras menos rigorosas para uma ideia mais próxima de Aldeia Global.

Trabalho e educação: Com mais máquinas no mundo, mais automatizados serão os produção e serviços. Parece óbvio, mas isso pode mudar bastante a maneira de as pessoas viverem. Quase toda a atividade remunerada exercida atualmente poderá ser absorvida pela tecnologia nesse futuro próximo. O que os pensadores da Singularidade ainda não vislumbraram é quais novas profissões poderão surgir a partir das novas tecnologias. A ideia é que as pessoas usem a inteligência artificial e ganhem dinheiro com isso em qualquer área.

Por isso, existe entre eles uma grande preocupação em preparar as atuais e futuras gerações para esse cenário, a partir de uma educação que estimule mais a criatividade e resolução de problemas por meio dos conhecimentos científicos do que o tradicional método adotado hoje, que tem um ensino para fins mais técnicos. O conhecimento não será para formar mão de obra para a execução da produção, mas para formar pensadores capazes de liderar os meios produtivos, organizações e máquinas. A educação deverá formar gestores de conhecimento.

Transporte: Uma das principais revoluções que a Singularidade promete é a do meio de transporte. Veículos elétricos que dispensam motoristas tendem a substituir os movidos a combustível fóssil pilotados por humanos. Isso reduziria quase na totalidade o barulho nas grandes metrópoles e o número de acidentes. Na China, por exemplo, algumas grandes cidades já estão em processo de substituição total das frotas de táxis para veículos elétricos até 2020. A alta circulação desses veículos geraria uma queda no preço dos carros.

Meio ambiente: As cidades mais inteligentes também resolveriam uma porção de problemas urbanos, como engarrafamentos, poluição, moradias e manejo do lixo. Sobre isto, a ideia é de reaproveitamento de tudo, eliminando o descarte com a instituição de uma economia mais circular, na qual o produto usado volta à indústria como insumo. A IA seria capaz de encontrar meios de transformar a produção e o consumo.

Economia: Os futurologistas preveem que uso das commodities será bastante reduzido, enquanto o uso de energia aumentará exponencialmente. A produção de alimentos será mais tecnológica e não demandará vastas extensões de terra para isso. O conhecimento científico já descobriu maneiras de reproduzir proteínas, alimentos e carne animal a partir de células. A expectativa é que isso se torne comercial nas próximas décadas com a criação de fazendas biológicas. O tipo de matriz energética para atender a demanda maior, no entanto, ainda é algo que permanece sem um consenso entre os futurólogos.

Saúde: Muitos gadgets ainda serão comercializados, mas a maioria deverá ser convergido em peças inseridas no corpo. Serão capazes de avisar taxas de colesterol, açúcar, batimentos cardíacos, níveis hormonais, estresse e até dosar remédios e anticoncepcionais sem a necessidade de um exame de laboratório ou ingestão de medicamentos.

Já hoje as tecnologias auxiliam as equipes de enfermagem nos hospitais desenvolvidos. Cerca de 90% das enfermeiras americanas que usam o programa Watson, da gigante de tecnologia IBM, seguem as recomendações do software, segundo pesquisa conduzida ano passado pelo Mizuho, um think tank global de tecnologia. Em toda a América Latina, a ferramenta passou a ser usada neste ano pelo Hospital Mãe de Deus, que fica na capital gaúcha, para o tratamento de câncer.

Pessoas com grandes fortunas – como Jeff Bezos, CEO da Amazon – estão investindo no prolongamento da vida humana com a erradicação de doenças e da própria morte. Para isso, há trabalhos científicos para a reposição de órgãos humanos a partir da clonagem ou pelo auxílio de máquinas implantadas, como é o caso do marcapasso. O futurólogo Ray Kurzweil, por exemplo, acredita até que será possível transferir a consciência de alguém para outro corpo biônico.

Comentários